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sábado, 26 de setembro de 2009

decorar texto de teatro

Como Decorar textos sejam de teatro, ou trabalho qualquer é uma técnica que você desenvolve com o tempo, e pode aprimorar pela vida toda. Na verdade o que você precisa ter é o Maximo de concentração.

Subir em um palco e atuar precisa de uma preparação, e essa preparação você adquire com ensaios, então a melhor maneira de se decorar textos de teatro é ensaiando. Você pode usar o ensaio em grupo para decorar ou então quando estiver só, sem barulho.




Uma boa,é você decorar os textos antes dos ensaios para não atrapalhar o rumo e o ritmo dos ensaios. Usar de gravadores e técnicas como decorar antes de dormir também são boas pedidas. O importante é você se concentrar e não ter preguiça de decorar o texto.

fonte:http://www.blogers.com.br/

foto: Estreou no dia 06 de março/2009 no Teatro Clara Nunes, do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, RJ, no Brasil, o musical Avenida Q. Esse aqui vale a pena pela.

Adaptado da peça de sucesso na Broadway, Avenue Q é a história de Princeton, mané que chega a Nova York com muitos sonhos e pouca grana, e acaba indo morar no endereço do título, que é o único aluguel que pode pagar. O musical mostra também os bizarros vizinhos de Princeton, muitos deles suspeitamente parecidos com fantoches (à la Vila Sésamo), que nos ensinam importantes lições de vida, como…


domingo, 20 de setembro de 2009

Teatro na vida das crianças auxilia a perda da timidez

Não são todas as pessoas que nascem com menos vergonha sendo mais comunicativas e sim tendo muita vergonha de se comunicar, de se expressar isso sendo muito comum com algumas pessoas principalmente com as crianças e que às vezes não é nada bom, quanto mais tímida a criança for ela crescerá uma pessoa ainda mais tímida que poderá incapacitá-la de fazer muitas cosias.






Hoje o mercado é muito exigente e concorrido quem não se sobre sair ao outro perde a chance de ocupar uma excelente vaga, e às vezes o que acaba impedindo que as pessoas tenham um excelente emprego é a timidez, em algumas vagas é preciso se soltar um pouco mais, ser comunicativo.

Isso vem desde criança e é nessa fase que precisar treinar a timidez, segundo especialistas a saída que muitos procuram sendo muito aconselhável é que os pais devem estar incentivando e colocando seus filhos em aulas teatrais, acaba ajudando e muito estimulando a criança a se expressar em público, não ter mais vergonha uma alternativa que ajuda na vida futuramente.

fonte: http://www.blogers.com.br/
http://www.cm-moita.pt/pt/

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

dia mundial do teatro

O teatro é a forma de arte mais bem conhecida em todo o nosso mundo, por seus gêneros, seus textos, seus musicais e por conta de tudo isso, o teatro foi homenageado com uma data especialmente para ele, o dia mundial do teatro.





O teatro nasceu na cidade de Atenas na Grécia e era cultuado como a principal festividade ao Deus Dionísio, considerado o Deus adorador do teatro. Em homenagem a festa do vinho, e ao aniversário de Atenas é comemorado em 27 de março o dia mundial do teatro.

Nesse dia, quase todas as casas de espetáculos e teatros do mundo todo apresentam peças e musicais de graça, e a Broadway é conhecida por abrir seus teatros de graça na noite de 27 de março, esgotando as suas lotações.


fonte: http://www.blogers.com.br/


sábado, 12 de setembro de 2009

maquiagem de palhaço


Make de palhaço!



A maquiagem artística está presente no teatro, nas festas infantis e nos palhaços!!!


Para muita gente que está começando (ou atores que não são muito craques na make) é importante saber que tipo de recurso existe para seu rosto ficar mais colorido!



Na make de caracterização existem tipos de produtos a serem utilizados:



- PANCAKE: Possue várias cores diferentes (preto, azul, branco, marrom, amarelo...) e você deve aplicar usando água. Passa com esponja fofa úmida ou com pincel kabuki molhado.

Com a esponja o acabamento é pouco mais complicado pois pode manchar e ficar difícil de corrigir. Quem tem mão boa e delicada para make consegue "depositando" o produto no rosto, sem esfregar muito. Se você ficar esfregando muito terá manchas no ato assim como se você molhar demais a esponja.

Com o pincel kabuki as coisas ficam pouco mais fáceis. Deve começar do topo da testa para baixo. Pegue bastante produto (esfregando o pincel) antes de passar no rosto, ok?


* Para quem transpira muito, ou fará apresentações ao ar livre, o pancake não é uma boa opção porque mancha em contato com a água.




- MAQUIAGEM DE PALHAÇO: É um produto específico feito para esse tipo de make. Sua base é de óleo por isso é o mais indicado para quem transpira (algumas marcas já são à prova d'água). Passa com esponja de latéx e dependendo da consistência até com os dedos delicadamente. O conceito de não esfregar muito vale também nesse caso.


Existem várias cores e principalmente o branco para fazer aquele rosto pintadão! Depois aplique um pouco de pó translúcido solto (de preferência um matificante tipo o BLOT da MAC) com pincelão para fixar melhor.




Para fazer a make você pode "pintar e bordar" com lápis de olho preto (ou outras cores), pigmentos, aqua color, batom longa fixação, delineadores e sombras pastosas. Com pancake rola também sombras em pó aplicadas com pincel fofo, pigmentos, iluminadores...


Pode usar *mixing medium para intensificar as cores das sombras e aumentar a durabilidade.



* Passar um spray fixador depois da make é bacana para segurar mais tempo (como o da Kryolan).




Aqui no Brasil você compra nas marcas *Catharine Hill (que é famosa por esses tipos de produtos) ou a importada *Kryolan (que tem produtos para efeitos especiais).


No exterior existem várias muito boas com texturas diferentes. Dá para ver em sites...




Aproveite que esse tipo de make que exige excessos, cores intensas e muita criatividade!!!!

Estude seu personagem e treine em casa para arrasar no teatro, evento ou até na festa à fantasia!!!

PAOLA

Posted by PAOLA GAVAZZI

Labels: Makes diferentes

Fonte: http://truquesdemaquiagem.blogspot.com/

fonte:paolafotografa@uol.com.br



maquiagem de teatro

Maquiagem de teatro - como caracterizar idades diferentes?
LB, RJ, 2005

Cuidados a serem tomados:
- Lembre-se que em teatro (ou num projeto com criancas) você pode exagerar algumas caracteristicas para facilitar o entendimento da platéia. Mas, cuidado para não cair no ridiculo e para não ofender as pessoas.
- Qualquer maquiagem ou pintura que as crianças forem usar tem que ser atóxica e hipo-alergênica (anti-alérgica) e tem que ser autorizada pelos pais ou responsáveis
- Roupas usadas ou de segunda mão são um ótimo recurso, mas é sempre bom lavá-las antes das crianças usarem e verificar que não tenham pulgas ou traças.
- As crianças devem manter roupa de baixo e uma camiseta (e talvez um short) por baixo da roupa de teatro para evitar o contato direto com a pele.

O que fazer:
1. Observe pessoas na sua comunidade de cada idade que você quer representar; veja quais as características mais marcantes e se vocês conseguem imitar os jeitos e maneirismos.

2. Converse com as crianças sobre as características observadas, e deixe elas ajudarem no processo de construir os personagens na medida do possível. Também é bom conversar com as criancas que nem todo mundo é igual e as caracteristicas usadas para cada idade do personagem são uma generalização, para ajudar a perceber a passagem do tempo.

3. Existem tintas para pintura de rosto e pele em geral usadas para pintar animais como pequenas borboletas nas faces das crianças. Procure lojas de material para festas ou teatro a tinta ou maquiagem adequada e também livros ou revistas que ensinem passo a passo como usá-las. Com estas tintas você pode desenhar rugas, olheiras, bigodes e barbas quando necessário.

# 4. Faça pequenos ajustes na roupa: comece com uma tunica simples de mangas compridas ou uma camiseta; uma cor para cada personagem
Obs.: Manter a cor do começo ao fim ajuda a plateia a perceber quem é quem na história (ainda mais se cada idade vai ser interpretada por um ator/criança diferente); a mesma túnica usada do começo ao fim, acrescentando peças por cima também ajuda com custos e com a imagem de passagem do tempo.
# para identificar a criança você pode usar um pouco de pasta-d'água como as crianças vão a praia; ou deixar o personagem levar um brinquedo nas mãos. As crianças também podem usar uma camiseta de tamanho grande o que as fará parecerem menores.
# para o adolescente: um lenço estampado sobre os ombros ou amarrado na cabeca; ou um boné virado para trás; carregando livros escolares, usando fones de ouvido...
# para o adulto, coloque uma peça de roupa extra: um casaco sem mangas que vá sobre a tunica ou um avental de carpinteiro. Um paletó, jaleco ou uniforme profissional.
# para terminar como idoso, acrescente um casaco mais quente: um pedaço de pelucia imitando pele de animais ou um de lã em tricô; levando uma bengala. Você pode conseguir uma peruca branca ou colocar um pouco de talco nos cabelos das criancas para ficar grisalho - peca autorizacao aos pais primeiro!

Por exemplo: No caso de um carpinteiro: a criança pode trazer um martelo de plástico colorido, de brinquedo. O adolescente um martelo de madeira, de aprendiz; O adulto um martelo real mais um pequeno cinto de ferramentas. Já o idoso pode trazer um objeto de madeira terminado, como uma caixa ou cadeira.
Para Moisés, ele pode trazer como criança um cesto de palha; como adolescente um rolo de papel, representando a escola egípcia; como adulto ele pode vestir sandálias e trazer um cajado e como idoso carregar a tábua dos 10 Mandamentos.

5. Treine posturas e jeitos de caminhar:
engantinhando ou passos exitantes para um bebê
saltos e corridas abruptas para criança
aquele passo caracteristico meio gingado, um ombro mais alto que o outro para o adolescente
passo decidido, pisando firme, apressado e determinado para o adulto; postura ereta
e o idoso andando meio encurvado e devagar.

Fonte: http://www.bernerartes.com.br/ideiasedicas


casa de penhores parte2






2º ATO



CENA 7 - CASA DE DORA


A MÃE DEFUNTA, NO CAIXÃO, IMÓVEL, MAS DE OLHOS MUITO ABERTOS, VIGILANTES. O TIO, PENDURADO NUM CABIDE, PRÓXIMO AO CAIXÃO. COROAS DE FLORES DE TECIDOS DE PADRONAGENS DIVERSAS, COLORIDÍSSIMAS, ESPALHADAS PELA CASA.
PENUMBRA. CHOVE. SOPRA UM VENTO FORTE, SIBILANTE. RIBOMBAM TROVÕES E OS RAIOS JOGAM FLASHES DE LUZ SOBRE A MÃE E O TIO, ATRAVÉS DA JANELA.
RUÍDOS DE CARROS, BUZINAS, VINDOS DE FORA.

A PORTA SE ABRE, IMPULSIONADA PELO VENTO, E ENTRA UMA FIGURA DE CAPA PRETA, CORRENDO. A MÃE SE ASSUSTA O TIO SE TREME TODO.

MÃE - Afasta-te, Satanás!

DORA DÁ UMA GARGALHADA E RETIRA A CAPA COM UM GESTO RÁPIDO.
LUZES. ELA ESTÁ DE VESTIDO VERMELHO, RADIANTE.

DORA - Já chegou no inferno, mãe?
MÃE - Dora?!
DORA - O mundo desaba com Satanás na dianteira! (CORRE, FECHA A JANELA E A PORTA) Gostou da capa? Roubei de um padreco. Coitado do padreco, saiu correndo atrás de mim, tropeçou na batina e caiu de cara na lama. (RI)
MÃE - Você parece uma prostituta!
DORA - Estou loucamente feliz! (RODOPIA) Vou ficar rica e já não tenho você pra me encher o saco... quer dizer, em parte. Ai!, tenho vontade de sair por aí abraçando todo mundo e gritando: a vida é linda!, linda! Me tomem, me apertem, me comam! Ai, esse cheiro de terra molhada me faz tremer de tesão! (CANTA UMA MÚSICA SENSUAL)
MÃE - Filha ingrata, não botou um dia de luto pela morte da pobre mãe!
DORA - Ai, se eu tivesse um marido tesudo, eu ia comemorar dando pra ele alí fora, na chuva, gritando que nem gata no cio! Mas onde já se viu marido tesudo!...
MÃE - Prostituta!
DORA - Calma, Dora, calma. Agora é hora de trabalho. Você ainda não ficou rica. Não conte com o ovo no cu da galinha. (PEGA UM CADERNO, LÊ) Vinte coroas para o Ministério da Educação, vinte para o da Cultura - entrega em trinta dias. Quarenta coroas para o Ministério da Justiça - entrega em vinte dias... Ih, tá ruço! Ainda nem terminei as cinquenta do Ministério da Fazenda!

ACENDE UM CIGARRO. COMEÇA A TRABALHAR.

DORA - Vamos, mãos à obra, Dora. Você só conta com você mesma. Sua mãe, que era uma inútil, agora está imóvel. Seu marido, hum!, é um intelectual!

CANTAROLA ALGO. SUSPENDE A COROA QUE ESTÁ CONFECCIONANDO, ADMIRA-A.

DORA - Linda! Um barato! "Dona Dora, a senhora tem a ousadia dos grandes artistas!", foi o que me disse o vizinho do 203. (RI) Mal sabe ele que lancei a moda das coroas estampadas por falta do roxo-liso no meu guarda-roupa! É, mas vou terminar ficando sem roupa se não começarem a me pagar! Metade dos meus vestidos viraram flor de defunto! Assim que entrar uma grana, vou mandar fazer uma etiqueta pra valorizar o produto: "Dora Confecções Moribundas Limitada"!

TERMINA DE FAZER UMA COROA, COLOCA-A NO PESCOÇO, RODOPIA ALEGREMENTE. ARRUMA AS OUTRAS COROAS. ALGUMAS SOBRE O CAIXÃO DA MÃE.

DORA - Mãe, vou dar um alô aqui no seu caixão. Não que você mereça, mas... (COLOCA UMA COROA COLORIDÍSSIMA EMOLDURANDO O ROSTO DA MÃE) Hum, já melhorou o visual!

ENTRA EDUARDO, ENCHARCADO PELA CHUVA. DORA RODOPIA À SUA FRENTE, COQUETE, A COROA PENDURADA NO PESCOÇO.

DORA - Que tal? Não é linda?
EDUARDO - Um carnaval fúnebre!
DORA - Você não tem senso de humor. Todo mundo está adorando as minhas coroas!
EDUARDO - É, eles precisam de um pouco de cor pra fazerem de conta que estão vivos! (NT) Sai da minha frente. Me dá uma toalha.
DORA - Pare de implicar com os meus fregueses. Ai de nós se não fossem eles! São pessoas ótimas!
EDUARDO - Mortas!
DORA - Não é verdade. Deix'eu te enxugar pra você não se gripar... Tira as cuecas também, meu bem...
MÃE - Prostituta!
DORA - Até o pau encharcou... e encolheu!

OS DOIS RIEM. EDUARDO PROTEGE-SE COM A TOALHA.

DORA - Será que ele ainda estica? (BOLINA-O)
EDUARDO - Me deixa, mulher, tô cansado.
DORA - E ainda fala dos mortos! Quer uma birita pra se reanimar? Que pergunta!

ELA TRAZ PRA ELE DOIS DEDOS DE VODCA.

EDUARDO - Que miséria! (BEBE DE UM GOLE) Cadê a garrafa?
DORA - Tá no finalzinho.
EDUARDO - E o meu pijama?
DORA - Qualé, Eduardo, tá pensando que sou tua babá? Não abusa, senão perco o bom humor.

EDUARDO SAI DE CENA.

EDUARDO - (OFF) Não acho o meu pijama. Vai ver que virou flor de defunto!
DORA - Se ele ainda tivesse cor!...

EDUARDO VOLTA. DE PIJAMA E COM A GARRAFA DE VODCA.

DORA - Assim que pintar uma grana, vou comprar um pijama pra você. Ai, estou exausta! Vou ter que contratar alguém pra me ajudar. Todo dia aumenta o número de encomendas. Já tem gente encomendando com três meses de antecedência.
EDUARDO - Melhor negócio neste país, só supermercado!
DORA - Você não leva a sério o meu trabalho. Por puro preconceito... Acha que estou compactuando com eles (FRISA O "ELES"). E daí? São eles que me dão trabalho e, bem ou mal, estão aí. Os outros, nem existem!...
EDUARDO - (SEM TIRAR OS OLHOS DO JORNAL) Eles não deixam!
DORA - Estou de saco cheio de blá-blá-blá. Quero viver bem, sem sufoco de dinheiro, sem ficar contando tostões no fim do mês...Você, Eduardo...
EDUARDO - Não sou eu que crio os impostos...
DORA - Quero comer bem, me vestir bem, ter grana pra ir ao cinema, jantar fora...
EDUARDO - ... pra comprar o carro do ano...
DORA - É isso mesmo. É melhor do que ter um fusca de porta amarrada com barbante. Quero um carrão, zero quilômetro, a gasolina! Não há nenhum pecado em se viver bem, nem mesmo em ser rico. Duda, nós vamos poder viajar, vamos poder ir aos Estados Unidos, à Europa, à África! Ai, sou louca pra conhecer a África! (ESPERA. EDUARDO NÃO SE ENTUSIASMA. CHEIA DE INTENÇÕES) Duda, nós vamos poder visitar os países da União Soviética!
EDUARDO - Acabou.
DORA - Os países?
EDUARDO - A União.
DORA - (RI. AMOROSA) Duda, meu amor, você precisa me ajudar. Preste atenção, só um minutinho. (TIRA O JORNAL DA MÃO DELE) Olha, daqui a pouco eu não vou conseguir mais dar conta desse serviço sozinho. Vou ter que contratar uma, duas, três, sei lá quantas pessoas pra me ajudar na confecção...
EDUARDO - Mal começou já tá querendo botar os outros pra trabalhar pra você, é?
DORA - Espera, ouve. Não quero explorar ninguém, pelo contrário, vou abrir mercado de trabalho, melhorar a vida de algumas pessoas...
EDUARDO - Aprendeu rápido o discurso do patrão!
DORA - Há patrões e patrões. Vou pagar muito bem aos meus operários. Eles vão ter até participação nos lucros. Gostou? Agora, presta atenção, pra poder fazer esse negócio direitinho, respeitando todos os direitos do "povo injustiçado", eu preciso da tua ajuda.
EDUARDO - Tá me gozando?
DORA - Não!
EDUARDO - Então corta essa que eu não entendo de coroa de defunto.

PEGA O JORNAL. DORA O TOMA NOVAMENTE.

DORA - Espera. Não seja preconceituoso, é um negócio como outro qualquer! Mas eu não sei fazer negócio, preciso de alguém que dirija a fábrica. Um homem prático, dinâmico, capaz...
EDUARDO - Erro de pessoa. Contrate outro.
DORA - (ENÉRGICA) Você pode ser tudo isso, basta querer. Além do mais, a direção de um negócio a gente não entrega a qualquer um. É um absurdo que você entregue a outro a direção da fábrica. É dar atestado de incompetência!
EDUARDO - Não tenho nada com isso, o negócio é seu!
DORA - Mas o homem é você e somos casados em comunhão de bens. O que é meu é seu. Enriqueceremos ou ficaremos na merda juntos. Duda, pintou a sorte grande, a nossa vez, você não entendeu?
EDUARDO - Dora, eu...
DORA - Já sei. Você é um jornalista, um intelectual, mas, olha, você não vai deixar de ser nada disso. Só vai melhorar de vida e poder fazer o que quer, não depender de patrão... (DOCE) Duda, eu te peço, por nós, pelos teus filhos, tira tuas férias na revista e experimenta.
EDUARDO - Agora?
DORA - Sim, agora.
EDUARDO - Mas ainda não tem fábrica!
DORA - Comece a organizar o negócio. Olha, tenho aqui esse bolo de ordens de pagamento e até agora não consegui receber nada. Você conseguirá com o seu prestígio, seus conhecimentos...
EDUARDO - Não vou pedir favor a esses putrefatos.
DORA - Não é favor. Eles estão nos devendo. Você só vai cobrar uma dívida.
EDUARDO - Está bem, vou pensar.
DORA - Pense. Uf!
MÃE - Dora, dinheiro não é tudo. Pense no seu tio, que já está fedendo!
DORA - Tadinho do tio. Deix'eu te passar um alquinho, tio.

RETIRA O TIO DO CABIDE, ESPANA-O E COMEÇA A LIMPÁ-LO.
A LUZ MORRE.



CENA 8 - CASA DE DORA


CANTAROLANDO, DORA TIRA A POEIRA DOS MÓVEIS, DA MÃE, DO TIO. O NÚMERO DE COROAS DIMINUIU.

DORA - Mãe, só me resta este vestido que está no corpo. Se não pintar uma grana, vou ter que usar a sua mortalha...
MÃE - (OLHOS ARREGALADOS) Não!!!
DORA - É o jeito. Não posso parar a confecção agora. Vamos ficar ricos, mãe. Aí eu te compro uma mortalha belíssima, cheia de fios de ouro. Tiro as tuas jóias do prego e boto todas em cima de você. Você vai "fechar" aí no outro mundo! Vai se casar com algum graudão! Escute, você conhece algum graudão, algum desses meus fregueses?
MÃE - Conheço.
DORA - Conhece mesmo? Desses que ainda estão na ativa, mandando?
MÃE - São meus amigos. No outro mundo, somos todos iguais.
DORA - Então Cristo é comunista?
MÃE - Não diga blasfêmias.
DORA - São seus amigos e não tinha me falado, sua velha egoísta? Peça a eles pra pagar o que me devem.
MÃE - Não peço favores. (FECHA OS OLHOS)
DORA - Mãe, mãe, mãe. Velha sacana, nojenta! É só a gente precisar dela e ela se manda. Pois fique sabendo que se os seus amiguinhos importantes não me pagarem, vou te tirar até as calcinhas. Escolha: ou fala com esses caloteiros ou vai se apresentar pra São Pedro com uma mão na frente e outra atrás.

ENTRA EDUARDO. PARECE DE PORRE.

DORA - Já de porre a essa hora, Eduardo? Desse jeito você vai terminar perdendo o emprego e...
EDUARDO - Pitonisa!
DORA - Que que você disse?
EDUARDO - (AVANÇANDO PRA ELA) Pitonisa! Adivinha! Maga, medium, megera, bruxa!
DORA - (RECUA) Você nunca foi violento! Que que você tem?
EDUARDO - Estou bêbado.
DORA - Estou vendo. Vá vomitar, vá.
EDUARDO - Não estou bebado. Estou emputecido. Olhaqui o que que eles me deram junto com as férias. Olha, lê.
DORA - Aviso prévio! Meu Deus! Duda...
EDUARDO - É isso aí. Eles me demitem pra admitirem um incompetente que tope ganhar um salário mais de merda do que o meu. O pior... (EMBARGA A VOZ)
DORA - Meu amor, você não merece isso...
EDUARDO - O pior é que eu toparia ganhar um salário mais de merda do que o que já ganho. Cheguei a insinuar isso pra eles, mas os putos não toparam e ainda me aconselharam a não baixar o meu preço...
MÃE - Eles têm razão. Aprenda a se dar valor!
EDUARDO - Ainda bancaram os dignos senhores enquanto eu me rebaixava. Filhos da puta! Eu dei o meu sangue pela porra daquela revista, eu... (CHORA)
MÃE - Bundão! Homem não chora!
DORA - (FEROZ) Fecha a matraca, megera. (DOCE) Duda, um profissional do seu nível, logo logo arruma outro trabalho...
EDUARDO - Eles não se interessam por qualidade. Eles querem nomes, estrelas. Eu não fiz o meu nome, fiquei lá naquela redação, como um funcionário público da casa. Ninguém mais se lembra de mim.
DORA - E os teus amigos dos tempos da política?
EDUARDO - Pode ser que me arrumem algum bico. Mas não tem nenhum importante. Eles também engordam e envelhecem, como eu. Eu acabei, Dora.

AGARRA-SE A ELA E CHORA COMO UMA CRIANÇA.

DORA - (AFAGA-O) Chore, meu amor, desabafe... Duda, não chore, a vida pro homem começa aos quarenta. Até pra mulher, descobri isso. Estou começando a tomar conta da minha vida. Antes, eu trabalhava para os outros e estava mofando. Agora, não, estou construindo a minha vida com as próprias mãos. Não tenho garantias, mas tenho esperanças. Estou gostando tanto de viver! Tanto que tenho tido vontade de ter um filho!
MÃE - Filho, nessa idade! Desfrutável!
EDUARDO - (EM PÂNICO) Dora, não faça isso. Prometa que vai continuar tomando a pílula, prometa. (ELA SORRI, ELE SE DESESPERA) Não brinque com isso, eu não posso ser pai, estou desempregado. Já tenho que pagar pensão pra três, eu não posso... me prometa...
DORA - (MATERNAL) Calma, meu querido, só tenho tipo vontade! Vamos deixar pra quando a gente ficar rico, tá?
MÃE - Hum, dessa mata num sai mais coelho!
EDUARDO - Essas coroas de defunto estão te pirando. Você acredita mesmo que vamos ficar ricos? Pois sim!
DORA - Acredito. Ainda não pintou nenhuma grana, mas vai pintar. E já. Senhor diretor da "Dora Confecções Moribundas Limitada", à luta! Você vai começar a trabalhar agora!
EDUARDO - Não, deixa pra amanhã. Estou estourando de dor de cabeça.
DORA - Tome um analgésico que passa. Nada de deitar. Vai ficar pensando besteira e atrasando a vida. Olhaqui as ordens de pagamento. Vai à luta. (ENCAMINHA EDUARDO PRA PORTA COM DECISÃO) Ciao, amor. Jogo duro com os caras, hein! (ELE SAI) Ciao. (JOGA UM BEIJO). Ciaaaooo! (FECHA A PORTA. SUSPIRA EXAUSTA) Tomara que você consiga, Duda! Se não conseguir, nem sei...

CONTA AS COROAS.

DORA - Treze! Sorte ou azar? O Instituto de Controle da Mortalidade encomendou mais cem para os suicidas deste final de mês. Tá ruço! Ih, tio, você tá com um cheirinho meio podre! Vou lhe botar na janela pra pegar um sol.
MÃE - Cuidado com os urubus no seu tio.
DORA - Velha, você ficou realista depois de morta!
MÃE - Já não tenho ilusões! Cresci.
DORA - É, você esticou mesmo. Os mortos esticam. E perdem as ilusões, é? Perdem as emoções também, é? Me responda. Preciso saber. Você tem emoções? (A MÃE FECHA OS OLHOS) Sacana, já se mandou. (PENDURA O TIO NA JANELA) Não sei porque, mas pensar em pessoas sem emoções me dá um frio na espinha... E pensar que são elas que mandam na gente!... Não, Dora, tira isso da cabeça, você tá pirando. Ih, não, isola!

TOCA O TELEFONE

DORA - Alô... De Brasília? Não, eu não atendo mais pedidos de Brasília. Essa cidade está cheia de caloteiros... Não quero nem saber. Descansem em paz! (DESLIGA O TELEFONE) Mais um ministério moribundo! Nunca pensei que existissem tantos ministérios, e moribundos! Não tenho nada com isso. Há uma semana que como arroz, feijão e batata. Isso é o que me interessa. (METE UMA BALA NA BOCA) Vida mais maluca!

VAI PRA COZINHA. MEXE NO ARMÁRIO.

DORA - O feijão acabou.

COMEÇA A ESCURECER. ELA VAI À JANELA E RETIRA O TIO. FECHA A JANELA. ACENDE A LUZ. VOLTA PRA COZINHA. ENTRA EDUARDO.

DORA - (ANSIOSA) E então?
EDUARDO - Nada feito.
DORA - Como, nada feito? Explica.
EDUARDO - Eles não vão pagar.
DORA - Não vão pagar? Mas eles compraram, eles me encomendaram...
EDUARDO - Tinham que ter feito concorrência pública.
DORA - Eduardo, quer explicar essa porra que eu não estou entendendo nada?
EDUARDO - No serviço público, qualquer coisa que se compre tem que ser através de concorrência. Várias firmas apresentam propostas e a que oferecer menor preço, fornece o produto. É isso.
DORA - E que que a gente tem com isso?
EDUARDO - Nada.
DORA - E você não vai fazer nada? Vai se conformar?
EDUARDO - Passei o dia feito louco. Fiz o que pude. Os putos mandam a gente dum lado pra outro que nem bola de pingue-pongue.
DORA - Mas isso é um absurdo. A gente vai pagar por um erro deles?
EDUARDO - A gente sempre paga pelos erros deles.
DORA - Comigo não! O buraco é mais embaixo.
MÃE - Dora, não entre nessa onda de pornografia!
DORA - Vá pro inferno, sua moralista, sua hipócrita. Você e seus tubarões defuntos, esses indecentes que beberam o meu sangue e não querem me pagar. Pois vou tirar a sua mortalha pra fazer mais coroas pra eles. (ARRANCA A MORTALHA DA MÃE) E, se eles não me pagarem, tiro até as suas calcinhas!
MÃE - Filha maldita! Que tu morras de fome e sede! Que não tenhas sossego enquanto viveres! E quando morreres...

DORA ENTOPE A BOCA DA MÃE COM UM PANO.

DORA - Megera, boca do inferno! Agora fecha esses olhos bisbilhoteiros, senão eu te cego. (A MÃE FECHA RAPIDAMENTE OS OLHOS) Vai, vai ajustar contas com o diabo.

SENTA-SE, EXAUSTA, DEPRIMIDA.

DORA - Não, eu não mereço isso...

ELA CAI EM PRANTOS.
A LUZ MORRE.



CENA 9 - NO PREGO


O PREGO SOFREU UMA MODIFICAÇÃO: NO LUGAR DO GHICHÊ, HÁ UM AMONTOADO DE OBJETOS, FORMANDO UM CORPO. NO TOPO DESSE ESTRANHO CORPO, ESTÁ UMA CABEÇA DE HOMEM, QUE RESPONDE PELO APELIDO DE "DADDY".
ENTRA DORA, COM TRÊS COROAS ESTAMPADAS. TEM ASPECTO SOFRIDO, ENVELHECEU. ELA ESTRANHA O AMBIENTE, ACHA QUE SE ENGANOU DE LOCAL.

DADDY - É aqui mesmo a Casa de Penhores.

ELA SE ASSUSTA. PROCURA LOCALIZAR A VOZ.

DADDY - (DIVERTINDO-SE) Olhe pra cima... até você poder olhar de cima...

DORA O OLHA BOQUIABERTA.

DADDY - Pensa que sou o Anti-Cristo? Sou igual a você, apenas estamos em planos diferentes... apenas uma questão de angulo...
DORA - Prefiro me entender com o funcionário. Cadê o funcionário?
DADDY - (TRISTÍSSIMO) Foi despedido no último corte. A Casa de Penhores vive momentos muito difíceis, minha filha! Depois de tantos anos de trabalho, estou tendo que atender no balcão. Eu, o chefe!
DORA - O senhor é o patrão? E vai me atender pessoalmente?
DADDY - Vou atendê-la pessoalmente, claro.
DORA - Excelência...
DADDY - Pode me chamar de Daddy, paizinho. É como me chamam.
DORA - Me chamo Dora. Sou sua freguesa desde os tempos em que a Casa de Penhores só aceitava ouro...
DADDY - Bons tempos! Mas temos que nos adaptar à nova realidade... Em que posso ajudá-la, minha filha?
DORA - Eu não tenho mais o que empenhar. A última coisa que empenhei foi a geladeira... que nem fez muita falta...
DADDY - Eu compreendo. A situação está terrível, apesar dos nossos esforços...
DORA - Agora só posso empenhar os meus trabalhos. Sabe, eu confecciono coroas de defunto. Coroas muito especiais, em tecido de várias padronagens. Eu lancei essa moda e as minhas coroas estão sendo disputadas por pessoas muito importantes... Só que não me pagam...
DADDY - É, também as pessoas importantes sofrem dificuldades, aqui e alhures!
DORA - Então, eu trouxe estas três pra empenhar...
DADDY - Você quer me deixar aqui três coroas de defunto?
DORA - É...
DADDY - Mas isso é um agouro! Está me agourando?
DORA - Não, eu não faria isso, Daddy. Veja, são coloridas...
DADDY - E daí? Que importa a cor, se a gente sabe a utilidade? A senhora só poderia me ofender mais se xingasse a minha reverenda mãe!...
DORA - Desculpe, eu não tive intenção... Eu não podia imaginar... Meus fregueses são ministros de estado, deputados...
DADDY - Problema deles. Eu não vou admitir assim a minha morte. Tenho superstições, horror à urucubaca! Sou um empresário nacional, minha senhora!

DORA COMEÇA A CHORAR.

DORA - Eu não sei o que faça ... Meu marido ficou desempregado... Já não temos dinheiro nem pra comer...
DADDY - (PATERNAL) Calma, não chore, não posso ver mulher chorando. Eu entendo. Também tenho sofrido injustiças e até ingratidões! Sou um trabalhador como você. Um trabalhador que nem sempre recebe remuneção - ou sequer reconhecimento! - pelo que faz! Vou ajudá-la, custe o que custar.

DORA FUNGA, ENXUGA AS LÁGRIMAS.

DADDY - Você tem umas belas mãos!
DORA - Obrigada.
DADDY - Sou um esteta. A beleza me toca fundo! Gosto das suas mãos!
DORA - Obrigada.
DADDY - Quer empenhá-las?
DORA - Empenhar minhas mãos? ... Mas... mas são os meus instrumentos de trabalho!
DADDY - Não vou cortá-las, nem danificá-las... Não destruo o que é belo. Você só assina um papel, no qual reconhece que suas mãos são minhas, até que possa saldar a dívida. Não confia em mim?
DORA - Confio, confio... Mas é que pra trabalhar eu tenho necessidade de sentir minhas mãos muito presentes, muito minhas... Servem os pés?
DADDY - Deixe-me vê-los.

DORA TIRA OS SAPATOS E EXIBE OS PÉS.

DADDY - É, são bonitos... não valem tanto quanto as mãos, mas servem.
DORA - Mas... e o meu marido? Ele não vai gostar de ter uma mulher sem pés...
DADDY - Sem pés? Que idéia! Eu lhe darei um atestado de integridade física, incontestável!
DORA - É, se é assim... e quanto o senhor me dá pelos pés?
DADDY - Digamos... bom, considerando que já somos amigos... (FALA UMA QUANTIA IRRISÓRIA)
DORA - Só? Isso não dá pra nada!... (VOLTA A CHORAR)
DADDY - Eu sei que é pouco, minha filha. Mas são muitas as pessoas que precisam de ajuda. Minha jornada de trabalho tem sido de vinte horas. Já tive um infarto, operei o coração - tenho três safenas! Estou aqui por um milagre de Deus, só Ele sabe dos meus esforços! Cada um de nós tem que apertar um pouco o cinto em benefício da coletividade, não é mesmo?
DORA - Talvez o senhor tenha razão, mas eu já não tenho o que apertar...
DADDY - Todos temos. Basta ter boa vontade e otimismo. Por exemplo, dessa quantia a mais que valeriam os seus pés, você abre mão para que eu possa ajudar a outro tão necessitado quanto você.
DORA - O senhor parece um padre falando.
DADDY - Um padre à antiga, que os modernos são mais discípulos de Marx do que de Cristo!
DORA - Agora o senhor falou igualzinho à minha mãe.
DADDY - Leve meus respeitos à sua genitora.
DORA - Ela está morta.
DADDY - Que Deus a guarde! Vá, amanhã pode vir receber o dinheiro.
DORA - Só amanhã? Mas eu preciso agora, preciso pra ontem...
DADDY - Racionalizamos a burocracia, mas não a erradicamos ainda. Tenha paciência. (DORA VAI SAINDO) Espere. Nessa mesa aí à sua direita, há papeletas de doação. Preencha uma e assine.
DORA - Doação?
DADDY - Sim, é a maneira de dizer. Não se preocupe. Quando você pagar a dívida, devolverei a papeleta. Não confia em mim?
DORA - Que jeito!... Desculpe, confio, não sei...
ASSINA A PAPELETA E SAI.



CENA 10 - PRIMEIRO, CASA DE DORA. DEPOIS, CASA DE DORA E PREGO, SIMULTANEAMENTE.


JÁ NÃO RESTA QUASE NADA DOS MÓVEIS DA CASA. DORA E EDUARDO ESTÃO MAIS CANSADOS E ENVELHECIDOS. ELA TRABALHA. ELE BEBE.

DORA - O material está acabando... Se ao menos eu conseguisse terminar esta encomenda... É de uma empresa particular, pode até ser que me paguem...
EDUARDO - Desiste disso. Neste país, a gente só tem direito a pagar. Já se nasce devendo. Morre-se de fome, de medo, de desespero, de cabeça baixa, e rindo, o riso das hienas. Somos um povo atavicamente escravo. Meu Deus, que povinho de merda somos nós!
DORA - Você disse que ia consultar um advogado. Em vez disso, fica aí enchendo a cara.
EDUARDO - Já consultei.
DORA - Por que não me disse? Eduardo, por que você não me diz as coisas? Quer me ver louca?
EDUARDO - (DEBOCHADO) Que tal formarmos um casal tipo sado-masoquista, bem ao gosto da pequena burguesia? Você me idolatra e eu te esnobo. Eu sou o homem, o macho, o Deus e você... (CANTANDO) "Você não passa de uma mulher". Que tal, hein?
DORA - Eu não estou brincando. O que disse o advogado?
EDUARDO - Que estamos fodidos. (DÁ UMA GARGALHADA) Fodidos!
DORA - Bebado! Já te disse que não estou brincando.
EDUARDO - Claro que não. Você já não tem jogo de cintura, Dorinha. Te olha no espelho. Estás os cornos da tua mãe. Olha a tua bochecha, tá caindo no pescoço. (RI)

DORA AVANÇA PRA ELE EMPUNHANDO UMA TESOURA. EMPURRA-O. ELE CAI.

DORA - Filho da puta! Inútil! Vou te arrancar os culhões!
EDUARDO - (APAVORADO) Dora, Dorinha, eu tava brincando... Desculpe, foi uma brincadeira de mau gosto, reconheço... tô bebado...
DORA - Você vive bebado! (ATIRA LONGE A GARRAFA. APONTA A TESOURA PRO PESCOÇO DELE) Agora fala, seu babaca, fala. O que disse o advogado?
EDUARDO - Eu não posso falar assim... Olha, me mijei todo...
MÃE - Frouxo!
DORA - Fala assim mesmo, de cueca molhada.
EDUARDO - Deixa eu me levantar...
DORA - Levanta, anda!
ELE TENTA SE LEVANTAR, PERDE O EQUILÍBRIO. ELA VAI AJUDÁ-LO, ELE A AGARRA PELO PESCOÇO.

EDUARDO - O macho aqui ainda sou eu...
ELA DÁ-LHE UM SAFANÃO E VAI EM CIMA DELE, EMPUNHANDO A TESOURA.

DORA - Covarde! Macho porra nenhuma!
MÃE - Dora, não se duvida da macheza do marido!
DORA - Só não te mato pra não te dar alívio. Você vai ter que beber comigo até a última gota dessa...
EDUARDO - Cuidado, tá empurrando a tesoura...
DORA - Fala, desembucha agora!
EDUARDO - Não consigo. Já nem me lembro...
DORA - Vai ter que lembrar, nem que eu tenha que abrir a tua cabeça.
EDUARDO - Dora, Dorinha, ouve, presta atenção... Olha, será que você não percebe? Não sou eu o teu inimigo. Eu estou do teu lado, nós estamos no mesmo barco. Não é a mim que você está querendo matar... (DORA AMOLECE) Tire esta coisa do meu pescoço, pode dar em desgraça.

DORA CAI NUM PRANTO CONVULSO.

DORA - (GRITANDO) Por que que eu não tenho coragem de me matar? Por que?
EDUARDO - Eu me faço a mesma pergunta todo dia... Mas, calma, olha, pior do que está não pode ficar...
MÃE - Pode, porque você não quer trabalhar como homem!
EDUARDO - Dora, pare com esse choro... Isso me deixa confuso, não consigo raciocinar...
DORA - Me abrace. Estou com medo.

ELE A ABRAÇA FROUXAMENTE. ELA SE AGARRA A ELE.
ENTRA O LEILÃO NO PREGO. DADDY FALA SOZINHO, SOB UM FOCO DE LUZ RETANGULAR, COMO SE ESTIVESSE DENTRO DE UM APARELHO DE TV.
QUANDO A AÇÃO PASSA PARA A CASA DE DORA, A VOZ DE DADDY SOME, COMO SE TIVESSE SIDO RETIRADO O SOM DO APARELHO DE TV.

DADDY - Senhoras e senhores, vamos dar início ao grande leilão anual da Casa de Penhores, para o qual estão aqui presentes as mais altas personalidades dos meios políticos, empresariais e de sociedade. Conforme Vossas Senhorias podem observar, é imensa a variedade de objetos a serem leiloados hoje. Resolvemos então, para melhor proveito de Vossas Senhorias, leiloá-los em lote. No primeiro lote, temos: um porta-retrato de prata antiga, relíquia de uma tradicional família da chamada classe média remediada, hoje em extinção...

DADDY CONTINUA A FALAR, MAS JÁ NÃO SE OUVE A SUA VOZ.

DORA - Eu quis te matar... estou enlouquecendo...
EDUARDO - É isso que eles querem. Que a gente enlouqueça, se aliene de tudo, se destrua...
DORA - Pelo amor de Deus, me diz o que disse o advogado...
EDUARDO - Disse que processar a União é loucura. O processo vai rolar durante anos e, ainda que a gente ganhe, não leva...
DORA - Mas não tem uma saída? Duda, eu estou com a roupa do corpo, nós estamos comendo batata... Não é justo. Eu investi o meu trabalho, a minha vida nessas coroas... Isso não pode ficar assim...
EDUARDO - Ainda temos uma chance, remota... Vamos alegar que o teu produto é único, não existe similar na praça. Assim elimina o argumento da concorrência pública que a lei exige.
DORA - É único mesmo. Coroas de tecido estampado é invenção minha!
EDUARDO - E você ainda não registrou a patente.
DORA - Não tive tempo.
EDUARDO - Pois faça isso agora.
DORA - É, vou agora.

LEVANTA-SE MOVIDA POR UM NOVO ENTUSIASMO.

MÃE - Eu falei com um dos meus amigos importantes...
DORA - (CHEIA DE ESPERANÇAS) Falou? Que que ele disse?
MÃE - Que fazer compra sem concorrência pública é corrupção.
DORA - E daí?
MÃE - Ele não se mete em corrupção.
DORA - Safado, hipócrita! Você acredita nisso?
MÃE - (SONHADORA) Um homem muito ilustre!... Olhou nos meus olhos, pegou nas minhas mãos... parece interessado...
DORA - E você ainda fica se esfregando nesse ladrão!
MÃE - E o filho! Como eu queria que você tivesse se casado com um rapaz igual aquele! Um rapaz bonito, bem vestido, fino! Igualzinho ao pai. Está sendo treinado pra substituir o pai!
DORA - Na malandragem! Morre o pai, fica o filho. Isso não tem fim! (SAI)

DADDY VOLTA A FALAR NO PREGO.

DADDY - ... uma panela de ferro, da cozinha popular - em desuso -, excelente receptáculo para plantas na varanda. Uma Coruja de Ouro, o maior premio do cinema nacional, objeto extremamente decorativo para uma casa de campo. Esta coruja pertenceu a um grande cineasta, que pede para não ser citado... (SOME A VOZ DE DADDY)

NA CASA DE DORA, ENTRA HELENA. A MÃE ABRE APENAS UM OLHO.

MÃE - Chiiiii! (FECHA RAPIDAMENTE O OLHO)
HELENA - (IRÔNICA) É um prazer te encontrar!
EDUARDO - (IDEM) O prazer é todo meu!
HELENA - Neste edifício não tem interfone, não é? Na revista, eu chegava na portaria e ouvia o porteiro dizer pelo interfone: ela tá subindo...
EDUARDO - Saí da revista...
HELENA - Eu sei.
EDUARDO - É!
HELENA - Há três meses que você não paga a pensão dos teus filhos.
EDUARDO - Eu sei.
HELENA - E então?
EDUARDO - Nada posso fazer. Estou desempregado.
HELENA - E eu não posso pagar tudo sozinha. Sinto muito, mas vou ter que te meter na cadeia.
EDUARDO - Tem toda razão. (GOZADOR) Faça-se de mim segundo a vossa vontade.
HELENA - Farei. Você verá.

VAI SAINDO DECIDIDA.

EDUARDO - Helena, espera... a gente nem conversou...
HELENA - Pra que? Você já me deu a decisão!
EDUARDO - Espera, não é bem assim... Você tem razão de tá puta comigo... Tenho sido um péssimo pai... Mas não tenho culpa de estar desempregado... Estou procurando trabalho como um louco, mas, a cada dia que se passa, mais portas se fecham...
HELENA - Não estou nem um pouco comovida. Olhaqui, se você teve filhos por acaso, azar seu. Eu sempre quis ter esses filhos. Eu amo os meus filhos e estou disposta a tudo pra garantir a eles uma vida menos fodida do que a tua. Estou disposta a tudo, a tudo, até a matar!

EDUARDO AGARRA RAPIDAMENTE A TESOURA. HELENA RECUA ASSUSTADA.

HELENA - Tá me ameaçando?
EDUARDO - Não, tô me defendendo. É a segunda mulher que me ameaça de morte hoje. Vou desistir de mulher. Vou ser veado.
HELENA - Talvez seja só o que você tem pra dar...
EDUARDO - Ainda bem que você se convenceu que só me resta a bunda.
HELENA - Isso não me comove... e não comoverá tampouco o juiz...
EDUARDO - Olha, vamos acabar com essa frescura. Quer mandar me prender, manda. Não tenho nada a perder. Só não vai ser legal pros nossos filhos. Eles vão saber que a mãe botou o pai na cadeia...
HELENA - Não tente fazer chantagem comigo.
EDUARDO - Que que você quer que eu faça? Estou desempregado, fodido... Olha a minha casa, já não tem mais nada...
HELENA - Você adora se fazer de vítima. Vítima do sistema! É muito fácil ser vítima, difícil é ir à luta! Sabe que que eu acho, Eduardo? Você vive paralizado de tanta culpa. Até hoje, você carrega essa culpa masoquista de não ter sido preso, torturado, morto, como os teus amigos. Você queria ser uma vítima heróica da ditadura, mas sobrou nessa também. Os milicos não te deram importância.

EDUARDO APERTA A TESOURA. PARECE QUE QUER TRUCIDAR HELENA. EM VEZ DISSO, SUSPIRA, SORRI COM SUPERIORIDADE.
EDUARDO - Você perdeu o controle. Olhaí, tá toda trêmula. É falta de homem. Arranja um marido que passa.
HELENA - Você não passa de um machão vulgar.
EDUARDO - Virou feminista, sapatão?
HELENA - Virei e vou te meter na cadeia. (SAI)
EDUARDO - Vai, vai arrumar homem. (EXPLODE) Merda! Vocês não vão me destruir, seus filhos da puta! (ESPATIFA UM CINZEIRO NA PAREDE)

NO PREGO.

DADDY - Peço a atenção de Vossas Senhorias para o sexto lote, que contém peças verdadeiramente originais. Um par de pés, de unhas mal pintadas, calejados pela labuta cotidiana de uma jovem trabalhadora, imagem viva da nossa gente forte e saudável! Um par de seios, firmes, orgulhosos, apontando desafiadoramente o futuro! A peça pode ser colocada em um elegante e sedutor banheiro, à guisa de torneiras...

GARGALHADAS.



CENA 11 - CASA DE DORA


MADRUGADA. EDUARDO DORME SENTADO NO SOFÁ RASGADO, SUJO, ÚNICO MÓVEL QUE RESTOU. A MÃE ESTÁ DESPIDA, COM PANINHOS TAPANDO OS SEIOS E O SEXO. MÃE E TIO ESTÃO COBERTOS DE TEIAS DE ARANHA. O AMBIENTE É DE ABSOLUTA DECADÊNCIA.
ENTRA DORA, TRAZENDO PENDURADAS PELO CORPO VÁRIAS E DESBOTADAS COROAS DE DEFUNTO. DESFAZ-SE DAS COROAS. VAI À COZINHA, PEGA UNS PEQUENOS POTES DE TINTA E UNS PINCÉIS. VOLTA PRA SALA E COMEÇA A PINTAR AS FLORES DAS COROAS.

MÃE` - Dora, tire essas malditas teias de aranha de minha cara. Não estou vendo você direito.
DORA - Ótimo!
EDUARDO - (SONHANDO) Não, você não pode ficar, vão te matar... (GRITA) Juliana, Juliana...
DORA - Eduardo, vai dormir na cama. Eduardo!

ELE ACORDA ASSUSTADO.

DORA - Vai dormir na cama.

ELE CONTINUA ALÍ, APATETADO.

DORA - Vai, continua a sonhar com a tua amante guerrilheira, enquanto eu arrisco a minha pele...
EDUARDO - Eu te disse pra não ir...
DORA - Não aconteceu nada...
EDUARDO - Mas podia ter acontecido...
DORA - Pulei o portão dos fundos...
EDUARDO - É muito alto?
DORA - Uns três metros.
EDUARDO - Não se machucou?
DORA - Quase me feri nas pontas de ferro...
EDUARDO - O filho de Rommy Schneider, lembra-se?
DORA - Morreu espetado...
EDUARDO - No portão da casa do avô, parece...
DORA - Melhor que no portão do cemitério...
EDUARDO - Quantas coroas?
DORA - Uma dúzia.
EDUARDO - Só?
DORA - Já não se enfeitam túmulos como antigamente...
EDUARDO - E na saída, o vigia, não te viu?
DORA - Dormia numa cova.
EDUARDO - De sete palmos?
DORA - Raza.
EDUARDO - Muitas baratas?
DORA - Trouxe três.
MÃE - Dora, tire essas baratas do meu caixão.
DORA - Todo caixão de defunto tem barata, mãe.
MÃE - Tem uma entrando nas minhas partes íntimas!
DORA - Engula-a.
MÃE - Como ela me odeia! Ai de mim! Ai de mim! Ai de mim!
DORA - Cale-se! O público não gosta de tragédia.
EDUARDO - Quantas coroas faltam?
DORA - Vinte. Foi a maior encomenda até agora. É do Ministério da Fazendo, o mais importante. Estranho, eles não escondem que estão morrendo...
EDUARDO - Não precisam, continuam mandando!
DORA - Mesmo assim, somos vigiados... grampearam o telefone.
EDUARDO - Eles não perdem as velhas manias...

O DIA AMANHECE. ENTRA UM MENSAGEIRO.

MENSAGEIRO - Sou funcionário do Palácio.
DORA - Civil ou militar?
MENSAGEIRO - Eclesiástico. Acabo de dar a extrema unção a S.Excia.
DORA - Meus pêsames.
MENSAGEIRO - Não sou da família. Sou apenas um funcionário da Casa.
DORA - S. Excia. descansa em paz?
MENSAGEIRO - Está bem, obrigado.
EDUARDO - Não quer se sentar?
MENSAGEIRO - Estou em missão secreta.
EDUARDO - Por que tanto segredo? Todo mundo sabe!
MENSAGEIRO - Nunca se sabe... Mas vamos ao que interessa.
DORA - A nós ou ao senhor?
MENSAGEIRO - À S.Excia., naturalmente.
DORA - Antes de qualquer papo, S.Excia. é boa pagadora?
MENSAGEIRO - Evidentemente, minha senhora.
DORA - E paga com dinheiro vivo?
MENSAGEIRO - Vivo sim, embora podre.
DORA - É, serve. Mas, em nota?
MENSAGEIRO - Não, em ordem de pagamento.
DORA - Fora! Fora!
MENSAGEIRO - Não estou entendendo...
DORA - Out! Out!
MENSAGEIRO - A senhora não entendeu. Trata-se de uma ordem!
DORA - Caguei. Fora!
MENSAGEIRO - S.Excia. não admite que se cague na sua honrada cabeça.
DORA - Pois que solte a grana. Sem grana, não tem coroa.
MENSAGEIRO - Um estadista não pode prometer o céu, já disse S.Excia.
DORA ` - Pois que prometa o inferno remunerado.
MÃE - Deixe que eu me entendo com S.Excia.
MENSAGEIRO - (PARA A MÃE) Às suas ordens, madame.
MÃE - Eu disse que me entendo com S.Excia. Não falo com criados. Fora! E diga à S.Excia. que a rainha mãe manda-lhe seus respeitos! (FECHA OS OLHOS)

SAI O MENSAGEIRO. PAUSA.
A MÃE VOLTA A ABRIR OS OLHOS.

MÃE - Falei com S.Excia.
DORA - Ela paga?
MÃE - S.Excia. é muito humana. Ai, que homem charmoso, um garanhão!
DORA - Nojenta! A gente com fome e ela galinhando!
MÃE - S.Excia. é compreensiva, mas pode fazer represálias quando contrariada na sua vontade.
DORA - Represálias? De que tipo?
MÃE - Imposto sobre as coroas, maxidesvalorização do tecido, expurgo do arame...
DORA - Não, mãe, não! Pelo amor de Deus, diga a ele que eu não tenho mais como conseguir coroas, que já assaltei todos os cemitérios...
MÃE - Vire-se. (FECHA OS OLHOS)
DORA - Mãe, não vá embora, não me abandone assim, sua nojenta...

DESESPERADA, JUNTA GUIMBAS PELA SALA. FAZ UM CIGARRO. AS MÃOS TREMEM. ACENDE O CIGARRO. SORVE-O PROFUNDAMENTE.

DORA - Eduardo, vamos ao prego.
EDUARDO - Não, isso não...
DORA - Prefere morrer de fome?
EDUARDO - Vá você então... eu não posso me comprometer assim...
DORA - Já me empenhei até os dentes. Agora é a sua vez.
EDUARDO - Dora, o mínimo de dignidade...
DORA - Dignidade! Você não se aguenta de pé, seu imbecil.
EDUARDO - Prefiro morrer...
DORA - Vamos. Não temos tempo pra mentiras.



CENA 12 - NO PREGO

DADDY COCHILA.

DORA - Daddy...

DADDY DESPERTA ASSUSTADO E CONTINUA UM DISCURSO QUE O SONO INTERROMPEU.

DADDY - Viajei para o exterior em cadeira de rodas pra fechar um negócio que deu emprego a mais de mil pessoas! Voltem os olhos para trás e vejam o que era e o que é hoje a Casa de Penhores...
DORA - Daddy, os jornalistas já saíram...
DADDY - Calhordas!
DORA - Daddy...
DADDY - Já sei. Veio se empenhar. (RI, CÍNICO) Só falta... Como é, resolveu?
DORA - Resolvi, não me incomodo mais...
DADDY - Bem, você já não é uma "gatinha", mas ainda arranha... Deixe-me ver...

DORA LEVANTA A SAIA.

DADDY - Tire a calcinha.

ELA OBEDECE.

DADDY - É, não está mal... Cem "paus".
DORA - Você disse que dava duzentos.
DADDY - Na semana passada. Agora, o produto caiu no mercado. Já vinha caindo, caiu mais!
DORA - Mas tudo sobe de preço...
DADDY - O que tá em falta. O que sobra, desce.
DORA - Mas cem é muito pouco... (TENTA FAZER CHARME) Você não acha que mereço mais?
DADDY - (DEBOCHADO) Cê tá ótima! Mas tem-se que fazer justiça... Há pouco, paguei duzentos por uma de 25... Você está com 50...
DORA - Quarenta e oito...
DADDY - Muito mal conservados. Só estou fazendo o negócio pra lhe ajudar. Como é, leva ou fica?
DORA - Fica...
DADDY - Passe amanhã pra receber.
DORA - Meu marido também quer se empenhar...
EDUARDO - Não, eu não quero... (DESPENCA DE FRAQUEZA)

DORA TENTA LEVANTAR EDUARDO.

DORA - Quer sim. Meu marido é um intelectual, um homem muito inteligente, um dos maiores jornalistas do país...
DADDY - (IRÔNICO) Hum, e como se chama o gênio?
DORA - Eduardo Guimarães.
DADDY - Nunca ouvi falar.
DORA - Ele já foi muito conhecido... e é uma grande cabeça...
DADDY - Me parece meio morto...
DORA - Não, ele tá vivo!

ELA TENTA COLOCAR EDUARDO DE PÉ.

DADDY - Não acredito que essa cabeça aí tenha alguma idéia útil.
EDUARDO - (COM AS ÚLTIMAS FORÇAS) Você não me conhece, seu filho da mãe!
DADDY - Conheço um homem pelos sapatos. Olha o teu sapato.
EDUARDO - Olha o teu rabo, ô macaco!
DORA - Não estraga tudo, ô inutil!
DADDY - Oh, não me incomodo! Seu marido deve ser um desses tipos sonhadores de cabeça dura. Gente boa! Dou cinquenta pela cabeça dele. Só pra ajudar.
EDUARDO - Filho da puta! Não tô à venda... (CAI DESMAIADO)
DORA - Desculpe, Daddy, ele tá meio pirado... é a fome...
DADDY - Oh, já estou acostumado! Passe amanhã pra receber.

DORA ESTAPEIA A CARA DESMAIADA DE EDUARDO. ELE VOLTA A SI, MAS NÃO CONSEGUE SE LEVANTAR. ELA O ARRASTA. SAEM DE CENA.


CENA 13 - CASA DE DORA


DORA ESTÁ SENTADA NUMA CADEIRA, IMÓVEL, O OLHAR OPACO. MEXE COM A BOCA, MASTIGANDO BOLHAS DE AR. A MÃE A OLHA, COM UMA EXPRESSÃO DA MAIS ABSOLUTA FELICIDADE. EDUARDO TECE TEIAS COM UM BARBANTE, NUMA ATITUDE DEMENTE.
DORA OUVE VOZES: A VOZ DA MÃE, A DE EDUARDO, A SUA PRÓPRIA. A PRINCÍPIO, AS FRASES SÃO CLARAS, TÊM SENTIDO. DEPOIS, COMEÇAM A SE MISTURAR E SE TORNAM QUASE ININTELIGÍVEIS ATÉ O MOMENTO EM QUE DORA COMEÇA A SENTIR OS SINTOMAS DA EXPLOSÃO - A DESCRIÇÃO DAS SENSAÇÕES É ENTÃO CLARA.
FOCO BRANCO SOBRE A MÃE DURANTE A SUA PRIMEIRA FALA GRAVADA. A EXPRESSÃO DE FELICIDADE CRESCE DURANTE A FALA.

MÃE - (VOZ OFF) Dora, parece que o seu joelho começou a endurecer... Foi assim que aconteceu comigo! A morte me pegou de baixo para cima. Depois do joelho, vêm as cadeiras, o intestino, o fígado, o coração...
EDUARDO - (V.OFF) Tentei filar a bóia na casa de uns amigos...
DORA - (V. OFF) Não deu pra trazer nada?
EDUARDO - (V.OFF) Eles não tinham. Dora, tô trêmulo.
MÃE - (V. OFF) O intestino já endureceu, filha? Que bom que você vem pra perto de sua mãe! Cadê o álcool do seu tio, Dora?
DORA - (V. OFF) Se a cólera que espuma...

AS VOZES AGORA SE MISTURAM.

V. GRAVADAS - Cadê o álcool cadê o álcool S.Excia pergunta pelas coroas que encomendou você tem quarenta e oito horas pra mandar as coroas se não mandar já sabe Dora não comemos há três dias faça alguma coisa o coração já endureceu, filha? deixe essa mania boba de viver Dora Dora vamos ao prego vem filhinha vem filha ingrata S.Excia. disse que paga as coroas cadê as coroas de S.Excia? Dora cê tá os cornos da tua mãe Dora sai daí menina tem teia de aranha debaixo dessa cama será que o vizinho arranja um pouco de café? se a cólera que espuma a dor deixa dessa mania boba de viver filha se a cólera se a cólera...

UM ESTALO, SEGUIDO DE RUÍDOS ESTRANHOS. OS RUÍDOS VÃO AUMENTANDO DE INTENSIDADE À MEDIDA QUE DORA DESCREVE SUAS LOUCAS SENSAÇÕES.
VIBRANTE, ENLOUQUECIDA, DORA FALA E SE EXPRESSA TAMBÉM COM O CORPO: SEGURA A PERNA, PROTEGE A CINTURA, ADMIRA SEUS PEDAÇOS NO ESPAÇO, CORRE PARA JUNTAR OS SEUS PEDAÇOS E, FINALMENTE, TORCE-SE NO RISO.

DORA - Essa corrente elétrica subindo pela perna ai na cintura não tenho cócegas uma explosão meus pedaços no espaço como fogos de artifício olha a cabeça rolando sobre os edifícios a perna direita aterrisou na linha do trem aquela criança tá soprando o meu estômado meu estômago não é bola menino ha-ha-ha deix'eu juntar os meus pedaços ha-ha-ha se não tenho cuidado junto perna com ombro ha-ha-ha-ha-ha- pé com cabeça ha-ha-ha-ha-ha-ha cabeça com bunda ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha...

SILÊNCIO TOTAL. DORA OLHA EM VOLTA COMO SE ESTIVESSE ACORDANDO DE UM SONHO. ALGO NELA MUDOU. ESTÁ LOUCAMENTE LÚCIDA. HÁ UMA ESTRANHA VITALIDADE NO SEU OLHAR, NO SEU CORPO. ERGUE-SE DE UM PULO E CORRE PARA OS FUNDOS DA CASA.

MÃE - (DESESPERADA) Ah, Dora, de novo! Me levem pro cemitério. Não aguento mais esta casa!
EDUARDO - (CANTA, DEMENTE) Pobre Dora! Dora, Dorinha, tá louquinha, tá louquinha...

DORA IRROMPE NA SALA, ESFUSIANTE. VESTE A FARDA DE CORONEL DO TIO, MAS NÃO TROCOU AS SANDÁLIAS DE SALTOS ALTOS.
DORA - Mãe, diga pra S.Excia. que conseguirei as coroas. Palavra de Dora!
MÃE - (INDIGNADA) Dora, tire a farda do seu tio. É a farda de um herói!
DORA - (DEBOCHADA) Escolha: os brios do tio ou a vontade de S.Excia.
MÃE - A última. O tio entenderá. (NT) Filha, cê tá um belo coronel!
EDUARDO - Dora, Dorinha, louquinha, louquinha, louquinha...
DORA - Tô bonita mesmo, mãe? (APROXIMA-SE DA MÃE)
MÃE - Linda! Mas bote um pouco de perfume. Você fede a mofo.
DORA - O perfume acabou.
EDUARDO - Dora, Dorinha, louquinha, louquinha...

DORA ENFIA A PISTOLA DO TIO NO CINTO E VAI SAINDO.

DORA - Adeus, mãe!
MÃE - Espere. Tire essas sandálias. Não ficam bem para um coronel!
DORA - Não tenho sapatos.
MÃE - Pois bote as botas do tio.
DORA - Estão furadas de balas. Parece que ele só levou tiro nos pés!...
MÃE - Ora, um herói também corre!
DORA - Adeus, mãezinha!
MÃE - Honra o teu sangue, filha!
DORA - Quem viver, verá!
MÃE - Deus está conosco!

DORA SAI.

EDUARDO - Dorinha, louquinha...
MÃE - Ai, como os vivos me cansam! Adeus, mundo ingrato!

A MÃE MORRE FINALMENTE, COM UM GESTO BRUSCO DE CABEÇA PARA O LADO.
EDUARDO LIGA UM VELHO RÁDIO. ENTRA A VOZ DO LOCUTOR DE UM PROGRAMA CLASSE C.

LOCUTOR(OFF) - Comunicamos o falecimento do empresário Carlos Henrique Bianchi da Cunha Albuquerque, ocorrido na madrugada de hoje. Sua mulher, filhos e amigos convidam para o velório, que terá início às 14 h, na sala 2 do cemitério São João Batista. Comunicamos o falecimento do empresário Carlos Henrique Bianchi da Cunha Albuquerque.

ENTRA UMA MÚSICA.



CENA 14 - SET DE UM RICO VELÓRIO.

A VIÚVA CHORA ALTO DEBRUÇADA SOBRE O CAIXÃO DO MORTO. BURBURINHO DE MUITAS PESSOAS EM OFF.
SURGE DORA, DE FARDA DE CORONEL E SANDÁLIAS ALTAS. APONTA A PISTOLA.

DORA - Psiu! Quietinhos! Isto é um assalto! Passem as coroas... não, as senhoras, não, as coroas...



CENA 15 - CASA DE DORA

EDUARDO PREGA EM UM PAINEL MAIS UM RECORTE DE JORNAL. NO ALTO DO PAINEL, OS TÍTULOS: "SÃO JOÃO BATISTA", "CAJÚ", "VILA ROSALY"

MÃE - Os vivos não têm o menor caráter quando estão com fome! Chega, vou para o Além! Adeus.

EDUARDO JOGA DISTRAIDAMENTE UM LENÇO SOBRE A CARA DA MÃE.
ENTRA NOVAMENTE A VOZ DO LOCUTOR DE RÁDIO.

LOCUTOR(OFF) - E atenção! Os cemitérios estão em polvorosa e os defuntos intranquilos. Vejam as manchetes das páginas policiais de hoje: Jornal do Brasil, "Louca dos Velórios Ataca Novamente", O Globo, "Defunto Assaltado na Gávea Pequena", Tribuna da Imprensa, "Defunto Rico Tem Segurança à Cabeceira", O Dia, "Coronel de Saltos Altos Assalta as Coroas"! (RISINHO) É mole?






CENA 16 - SET DE CEMITÉRIO

MONTADA NA ESTÁTUA DE UM TÚMULO, DORA OPERA UM MOLINETE. NA PONTA DA LINHA, ILUMINADA, SOBE UMA GRANDE COROA, COMO SE ASCENDESSE AOS CÉUS.

VOZ DE MULHER - (MARAVILHADA) Milagre!
DORA - Milagre! Mãe, vamos sair da merda, vamos enriquecer, mãe!

DORA DÁ UMA GARGALHADA.


FIM



Fonte: http://www.theatro.ocrocodilo.com.br/


casa de penhores parte1






CASA DE PENHORES
tragicomédia em 2 atos

de Isis Baião

Casa de Penhores
(em sua versão para o francês, Mont-de-Piété)
trouxe para o Brasil um dos 7 prêmios do concurso
1997 Onassis International Cultural Competitions - Theatrical Plays,
que teve lugar em Athenas-Grécia.

Casa de Penhores
Tragicomédia em dois atos

de Isis Baião
Sinopse
Dora, 45 a 55 anos, datilógrafa desempregada, é cliente assídua da Casa de Penhores, onde empenha as parcas jóias da Mãe, figura onipresente e comicamente mórbida. É casada com Eduardo, 45 a 55 anos, jornalista mal pago, bêbado. No sufoco, Dora resolve ganhar a vida confeccionando, para o Instituto de Controle da Mortalidade, coroas de defunto, cujas flores são feitas com os vestidos da Mãe, criando assim um novo estilo mortuário. O Instituto, órgão do Ministério da Saúde, aumenta progressivamente as encomendas, mas não paga, levando Dora ao desespero. Sem saída, mas loucamente determinada, ela apela para uma solução insana e inusitada.

Nesta peça, Isis Baião “mistura, com um humor às vezes cruel, o absurdo, o farsesco, o grotesco, o macabro, ligados por uma visão feminina de mundo, dentro de um contexto político-social” (opinião de Fred Clark - PhD em Literatura Brasileira na North Caroline University -, que estuda a obra da autora)

Casa de Penhores, em sua versão para o francês, Mont-de-Piété, foi uma das sete peças premiadas pelo 1997 Onassis International Cultural Competitions - Theatrical Plays, em Athenas (Grécia). Ao concurso, concorreram 1.470 textos, de 76 países.

Elenco mínimo: 3 atrizes e 3 atores

CENÁRIOS

1º ATO

CASA DE PENHORES E, DENTRO DESTA, A CASA DE DORA.

2º ATO

IDEM, COM AS MODIFICAÇÕES INDICADAS NO TEXTO.
NO DECORRER DO 2º ATO, A CASA DE DORA VAI FICANDO CADA VEZ MENOR E MAIS VAZIA, ENQUANTO A CASA DE PENHORES CRESCE, ENGOLINDO A OUTRA.

1º ATO

CENA 1 - NO PREGO
APRESSADOS E ANSIOSOS ENTRAM UM HOMEM E DUAS MULHERES. FAZEM FILA. EM SEGUIDA, ENTRA DORA, ESBAFORIDA, COLOCA-SE NO FINAL DA FILA. INQUIETA, OLHA O GUICHÊ VAZIO, METE UMA BALA NA BOCA, DEPOIS ACENDE UM CIGARRO (DORA SEMPRE ALTERNA OU MISTURA BALAS E CIGARROS). À SUA FRENTE, MADAME, SENHORA EMPERTIGADA, ABANA-SE FEROZMENTE COM UM LEQUE. O HOMEM FAZ CONTAS NUMA MAQUININHA, BALBUCIANDO NÚMEROS. A PRIMEIRA DA FILA, UMA MULHER GRÁVIDA, TENTA FAZER CROCHÊ E RESMUNGA. ESSAS PESSOAS FALAM SOZINHAS OU PENSAM ALTO. E, QUANDO PENSAM ALTO, A VOZ DOS SEUS PENSAMENTOS SAI EM OFF, SOANDO MAIS ALTO DO QUE O NORMAL, ENQUANTO SUAS BOCAS APENAS MEXEM.

DORA - (PENSANDO ALTO) "Se a cólera que espuma, a dor que mora n'alma..." Diabo, onde ouvi isso? Maluquice de quem madruga... Bem, até que tem pouca gente hoje... (METE UMA BALA NA BOCA)
MADAME - (PENSANDO ALTO) Se dona Carlota Joaquina, minha mãe, me visse nessa situação, morreria de vergonha! Que humilhação! (ABANA-SE MAIS FEROZMENTE) Onde vamos parar? Daqui a pouco as pessoas de bem estarão tão miseráveis quanto a ralé! Que absurdo!
DORA - (PENSANDO ALTO) Odeio essas balas de hortelã! Me sinto fazendo propaganda de pasta de dente na televisão! E me dão uma puta azia! (TENTA ARROTAR)
HOMEM - (FAZENDO CONTA NA MAQUININHA E RESMUNGANDO) Sessenta de feira, cento e cinquenta e cinco de supermercado... (PENSANDO ALTO) Merda de mulher que resolveu botar três fedelhos no mundo... três vampirinhos nojentos nas minhas costas. Comem feito animais! Bicho ridículo é mulher, umas vacas parideiras...
DORA - (PENSANDO ALTO) "Se a cólera que espuma... " Hum, tô pirando... Gente estranha essa, parece que tá indo pr'um matadouro! Será que tô com cara de vaca? (SORRI) Balas horríveis. Comprei pensando que eram de limão. Gato por lebre. Merda.

DORA MASTIGA RUIDOSAMENTE. MADAME A OLHA COM DESPREZO E HORROR.

MADAME - (PENSANDO ALTO) Gentinha mal educada! Que diria o Menezes me vendo aqui, ele que está escrevendo um livro sobre a minha árvore genealógica! (SUSPIRA, ABANA-SE) Um nome sem dinheiro já não vale mais nada! Ai de mim!
M. GRÁVIDA - (PENSANDO ALTO) Não fosse essa barriga, ele teria me assaltado... Veio por trás, já tava colado em mim - ai, ainda sinto um frio na espinha!... Deve ter visto a barriga e desistiu... Uma gravidez ainda tem seu valor...
MADAME - (PENSANDO ALTO) Esses funcionariozinhos se fazem esperar como se fossem patrões ou generais. Que absurdo!
DORA - (PRA MADAME) Desculpe, acho que já a conheço... talvez daqui mesmo...
MADAME - (CORTANTE) A senhora está enganada. É a primeira vez que venho aqui.
DORA - E está gostando? (PENSANDO ALTO, MUITO RÁPIDO) Meu Deus, que que eu disse!
MADAME - (COLÉRICA) Não estou habituada a esses ambientes! (PENSANDO ALTO) Atrevida! Não se pode dar conversa a essa gentinha!
DORA - Sinto muito.

MADAME CORTA O PAPO VIRANDO-SE TOTALMENTE DE COSTAS PARA A OUTRA.

DORA - (PENSANDO ALTO) Comendo merda e arrotando caviar! (PARA SI MESMA, BAIXO) Meu Deus, acho que estou dando pra pensar alto! (OLHA O RELÓGIO) Vou ter que arrumar atestado médico pra justificar essa falta. Tipo nojento aquele chefete!
HOMEM - (PENSANDO ALTO, ENQUANTO FAZ CONTAS) Não vai dar... Não é possível, essa máquina tá exagerando... Máquina nojenta, corrupta! (ATIRA A MAQUININHA PELA JANELA. OUVE-SE UM BAQUE)
VOZ DE FORA - Aaaaaaiiiii! Filho da puta!

O FUNCIONÁRIO ABRE O GUICHÊ. HÁ UM CERTO ALÍVIO NA ANSIEDADE GERAL. O FUNCIONÁRIO FAZ UM SINAL. NERVOSA, A MULHER GRÁVIDA GUARDA O CROCHÊ, SUSPENDE A BATA DE GRÁVIDA E RETIRAUM PEQUENO EMBRULHO DA BARRIGA, QUE É FALSA.

FUNCIONÁRIO - (IMPACIENTE) Vamos, minha senhora, o tempo é ouro!

AS PESSOAS NA FILA TAMBÉM SE IMPACIENTAM. MAIS NERVOSA, A MULHER ENTREGA AO FUNCIONÁRIO O PEQUENO EMBRULHO, CONTENDO UMA PULSEIRA E UM ANEL INSIGNIFICANTES. O FUNCIONÁRIO JOGA AS JÓIAS SOBRE A BALANÇA.

FUNCIONÁRIO - Cinco gramas. (FAZ UMA CONTA RÁPIDA) Tirando os juros e comissões... (SUSSURRA ALGUMA QUANTIA)
M.GRÁVIDA - (DECEPCIONADÍSSIMA) Só????
FUNCIONÁRIO - (IMPASSÍVEL) Leva ou fica?
M.GRÁVIDA - É...
HOMEM - Resolva, minha senhora, tem muita gente na fila.
M.GRÁVIDA - É, que jeito?... fica.

ELA RECEBE O DINHEIRO, ENFIA-O NA BARRIGA FALSA E SAI CABISBAIXA.

HOMEM - Qual a cotação do ouro?

O FUNCIONÁRIO BALBUCIA ALGUM NÚMERO.

HOMEM - Como? Semana passada tava mais alta! (VOLTA A FAZER CONTAS NA MAQUININHA)
FUNCIONÁRIO - Baixou!
MADAME - Baixou? O ouro, um metal nobre, baixou? Isso é baderna, pouca vergonha! Que absurdo!
DORA - Só a temperatura sobe. 40 graus, ouvi no rádio. Calamidade pública!

MADAME OLHA DORA COM O MÁXIMO DE DESPREZO.

FUNCIONÁRIO - Meu senhor, por favor, o tempo é ouro!
HOMEM - Estou aqui há meia hora esperando pelo senhor. Agora me espere. Tenho que refazer algumas contas.
MADAME - (PENSANDO ALTO) Homem organizado! Se o cretino do meu marido fosse assim organizado, não estaríamos ficando na miséria!
HOMEM - Há previsão de quando vai subir?
FUNCIONÁRIO - Imprevisível...
HOMEM - Pode subir...
FUNCIONÁRIO - Ou baixar...
HOMEM - O senhor é um baixo astral! (VIRANDO-SE PARA OS OUTROS) Estão vendo, é por causa de tipos como esse que vivemos intranquilos.
MADAME - O senhor tem toda razão, mas resolva-se, estou com pressa.

O HOMEM ABRE A BRAGUILHA E RETIRA UM BOLO DE JÓIAS. GEME.
O FUNCIONÁRIO PESA AS JÓIAS E FAZ CONTAS.

MADAME - (PENSANDO ALTO) Espera infernal! Deixei o "Arthur" trancado na área de serviço. A esta hora já fez cocô na área toda, só pra me fazer raiva. Cachorro mau caráter!
FUNCIONÁRIO - 255, líquidos. Fica?
HOMEM - E o senhor acha que tenho saco de ferro? Essa merda quase que me arranca os testículos! Quanto disse?
FUNCIONÁRIO - 255, líquidos.
HOMEM - Isto é roubo, extorsão!
FUNCIONÁRIO - Não tenho nada com isso. Sou apenas um funcionário da casa.
HOMEM - Desse puteiro, o senhor quer dizer!
MADAME - (PARA SI MESMA) Que linguagem! Gentinha baixa! Onde estou metida! Que humilhação! (ABANA-SE FRENETICAMENTE)
FUNCIONÁRIO - Leva ou fica?
HOMEM - Espere, deixe eu conferir esta sua conta.
MADAME - (PENSANDO ALTO) O cretino do meu marido vai me pagar por este vexame!
DORA - (PENSANDO ALTO) Os balangandãs da velha não vão dar pra pagar metade do aluguel! Família sem jóias é uma inutilidade hoje em dia!
FUNDIONÁRIO - Fica?
HOMEM - Fica com essa porra.

O HOMEM RECEBE O DINHEIRO E SAI RESMUNGANDO E APALPANDO O SACO DOLORIDO.

MADAME - Quanto estão cobrando de juros?
FUNCIONÁRIO - O mesmo, não baixou nem aumentou.
MADAME - O mesmo, qual? O senhor pensa que vivo no prego? É a primeira vez que venho aqui, primeira e última! Vim porque nesta cidade selvagem já não posso usar minhas jóias e nem o cofre está livre desses assaltantes assassinos. Vim para guardar aqui as minhas jóias. Não pense que estou matando cachorro a grito. A propósito, ande depressa que deixei o meu dálmata trancado na área de serviço e ele é muito sensível.
DORA - (PENSANDO ALTO) Ai, que nojo! "Se a cólera... " Que saco!
FUNCIONÁRIO - (JÁ EXAUSTO) A senhora ainda não me entregou as jóias.
MADAME - E o senhor ainda não me respondeu a pergunta, seu atrevido. Me responda: quanto pagarei de juros?
FUNCIONÁRIO - 24 % de juros e comissões.
MADAME - Mais do que nos bancos? O senhor não tem vergonha?
FUNCIONÁRIO - Não tenho nada com isso. Sou apenas um funcionário da casa.
MADAME - O senhor trabalha aqui e não sabe porque cobram juros maiores do que nos bancos?
FUNCIONÁRIO - Sou apenas um funcioná...
MADAME - E não tem opinião própria?
FUNCIONÁRIO - Bem, acho... bom, aqui a senhora não precisa ter saldo médio pra receber o empréstimo.
MADAME - Empréstimo? Que empréstimo, se vou deixar as minhas jóias aqui com o senhor?
FUNCIONÁRIO - Comigo não. Não tenho nada com isso. Por favor, minha senhora, o tempo é ouro.
MADAME - O ouro não está valendo mais nada, pelo visto. Aquele senhor tinha razão e se eu fosse homem meteria um soco nessa sua cara cínica.

A CARA DE POBRE COITADO DO FUNCIONÁRIO PERMANECE IMPASSÍVEL. MADAME RETIRA UM PACOTINHO DE JÓIAS DE ENTRE OS SEIOS E ENTREGA.

MADAME - Chegue a balança mais para cá. Estou cansada de ser roubada no peso.
FUNCIONÁRIO - 44 gramas, confere? (FAZ A CONTA RÁPIDO E BALBUCIA UM VALOR) ... tirando os juros e comissões...
MADAME - Se não roubam no peso, roubam nos juros e não se tem a quem reclamar. Que absurdo!
FUNCIONÁRIO - Leva ou fica?
MADAME - Fica, que já fiquei horas nesta fila. Que insensatez!

ELA RECEBE O DINHEIRO, METE-O ENTRE OS SEIOS E SAI. DORA APROXIMA-SE DO GUICHÊ.

DORA - Já estão aceitando prata?
FUNCIONÁRIO - Só ouro.
DORA - Não é prata 90, é prata de lei, antiga...
FUNCIONÁRIO - Desculpe, só aceitamos ouro.

ELA RETIRA AS JÓIAS DE DENTRO DA MANGA DO VESTIDO E AS ENTREGA. O FUNCIONÁRIO DESCONFIA DE UMA DELAS, MORDE-A.

DORA - É ouro branco...
FUNCIONÁRIO - Metal ordinário, desculpe. (DEVOLVE A PEÇA E FAZ CONTAS)
DORA - (PENSANDO ALTO) Velha mentirosa. Deve ter escondido a verdadeira.
FUNCIONÁRIO - (BALBUCIA UM NÚMERO) Fica ou leva?
DORA - (DESESPERADA) Só? Não é possível. Há seis meses botei no prego essas mesmas jóias e recebi mais!
FUNCIONÁRIO - (EXAUSTO) A cotação do ouro baixou. Leva ou fica?
DORA - Ainda tenho dois dias pra pagar o aluguel. Será que não sobe de hoje pra manhã?
FUNCIONÁRIO - Sou apenas um funcionário da casa. Leva ou fica?
DORA - Que jeito! Fica.

RECEBE O DINHEIRO E VAI SAINDO.

DORA - (PENSANDO ALTO E RÁPIDO) "Se a cólera que espuma, a dor que mora n'alma e destrói cada ilusão que nasce. Tudo que punge, tudo que devora o coração no rosto se estampasse. Se se pudesse o espírito que chora..."
FUNCIONÁRIO - O próximo...



CENA 2 - CASA DE DORA

ENTRA DORA FALANDO SOZINHA.

DORA - Aviso prévio! Isso bate como sirene de alarme em tempo de guerra! Daqui um mês estarei sem garantia de que posso viver como gente... (GRITA PARA O INTERIOR DA CASA) Está me ouvindo, tio? Você sabe o que é uma guerra, não sabe? Pois é, daqui um mês você estará sem talco. Sim, porque o seu talco é mais supérfluo do que a minha comida, você não acha?
MÃE - (DOS FUNDOS) Não fale assim com o seu tio, Dora.
DORA - Foda-se, minha mãe. (TROCA DE ROUPA ENQUANTO FALA) Pelo menos receberei uma boa bolada. Férias e fundo de garantia, foi o que a psicóloga me disse. Você sabia, mãe, que as grandes empresas agora têm uma psicóloga só pra dizer pr'os funcionários demitidos que eles logo logo arrumarão um novo emprego? Maravilha, né?
MÃE - (DO INTERIOR) Têm o que?
DORA - Uma psicóloga.
MÃE - (APARECENDO) Dora, minha filha, não se meta com essa gente. Essas psicólogas só prestam pra aconselhar mulher a se separar do marido. Não viu a Zuleika? Vivia tão bem com o marido... (DESAPARECE)
DORA - (ARRUMANDO A CASA) Não se trata disso, mãe. Foi só uma terapia rapidinha pra desempregado. Ela fez uma entrevista enorme comigo. Primeiro me perguntou como que eu estava me sentindo. Sabe que que eu respondi? Ar-ra-sa-da, e buáááá... Depois que acabei de chorar, ela me disse que eu estava encarando uma simples dificuldade de maneira negativa, que eu estava cheia de expectativas catastróficas, que deviam ser reflexos da minha infância. Mãe, eu tive uma infância catastrófica?
MÃE - (DO INTERIOR) Você foi uma criança linda e alegre. Gostava de apagar cigarro em rabo de gato. Seu pai fumava muito. Eu sempre detestei cigarros. Você está fumando muito, Dora!

DORA ATRAPALHA-SE. JOGA FORA O CIGARRO. METE UMA BALA NA BOCA.

MÃE - (DO INTERIOR) Isso, chupe balas, é melhor.

DORA ATRAPALHA-SE NOVAMENTE. IRRITA-SE. COSPE A BALA. ACENTE OUTRO CIGARRO.

DORA - Bruxa! (RECOMPÕE-SE E CONTINUA A TRABALHAR) Então ela me disse que a vida está cheia de coisas boas, que aquela empresa não é a única e que esta cidade oferece mil oportunidades de emprego a mulheres capazes como eu. Um alto astral a psicóloga, você não acha?
MÃE - (DO INTERIOR) Fora da família, só confie no padre... se for velho.
DORA - (REPENTINAMENTE ENFURECIDA) Burra, idiota, que o diabo te leve e te espete o rabo para sempre!
MÃE - (APARECENDO) O talco do seu tio acabou, Dora.
DORA - Sinto muito. Ele vai ter que ficar sem talco.
MÃE - (ENÉRGICA) Você sabe que ele não pode!
DORA - Vai ter que poder. Talco é perfumaria e perfumaria é supérfluo. Muito caro para uma desempregada.
MÃE - (DOCE) Faça um sacrifício pelo seu tio, minha filha.
DORA - Pegue a farinha de trigo. Substitue muito bem o talco.
MÃE - Só hoje. Amanhã, eu exijo um talco para o seu tio. (SAI RESMUNGANDO) Já não se tem carinho nem respeito com os parentes. É por isso que o mundo está assim. Só é bom o que é novo. As tradições, a moral, já não têm nenhum valor... (SOME)
DORA - (GRITANDO) Mãe, não gaste muita farinha de trigo. Aprenda a poupar.
MÃE - (DO INTERIOR) Só tem dois dedos!
DORA - Pois deixe um.

ENFIA UMA BALA NA BOCA E COMEÇA A PROVIDENCIAR O JANTAR.
ENTRA EDUARDO.
DORA - Boa noite, pelo menos.
EDUARDO - Boa noite.
DORA - Recebí aviso prévio.

EDUARDO NÃO REAJE, APARENTEMENTE. DESPE-SE E VESTE UM PIJAMA VELHÍSSIMO.

DORA - Você me ouviu? Recebí aviso prévio. Significa que daqui a um mês estarei desempregada.
EDUARDO - Não se preocupe. Eu aguento a barra.
DORA - Aguenta? Como? No mês passado nós tivemos que tirar a pensão dos teus filhos do meu salário. E sabe quanto deram no prego pelas jóias da velha? Bem menos do que há seis meses atrás. A cotação do ouro baixou.
EDUARDO - A inflação continua a subir. Este povo não é de nada.
DORA - Não me vem com política hoje. Acho que você não entendeu bem. Estou desempregada. Os nossos salários juntos já não davam pras despesas...
EDUARDO - Sei, sei. Você é mais um desempregado de classe média. A situação do povo é pior.
DORA - Você não tem jeito mesmo!

EDUARDO PEGA UMA BEBIDA, SENTA-SE E ABRE UM JORNAL.

DORA - Eles te pagaram os 40% de aumento?
EDUARDO - Ainda não.
DORA - E você não reclamou, não cobrou?
EDUARDO - Claro. Mas não adianta, a revista não está indo bem.
DORA - O dono dela está rico!
EDUARDO - Grande descoberta!
DORA - Escuta aqui, por que vocês não fazem greve, hein? Como o pessoal do ABC. Você vive falando nos operários!
EDUARDO - Não diga burrice. Operário é outra coisa. A classe média não acredita em luta de classe. O brasileiro médio só luta pra ser um "self-made-man".
DORA - Chega, Eduardo. Só quero saber como que a gente vai se segurar nos próximos meses... Você já começou a beber essa vodca vagabunda. Quando era uisque bom, ainda vá lá...
EDUARDO - A classe média está baixando de padrão, proletarizou-se. Foi o que lhe valeu o pacto com o sistema!
DORA - Você vai morrer de cirrose e o sistema 'tá se lixando. Vem jantar, vem.
EDUARDO - Não estou com fome.
DORA - Você nunca está com fome. Bebendo desse jeito...

ENTRA A MÃE.

MÃE - A farinha de trigo estava com bichos. Tive que passar farinha bichada no seu tio.
DORA - Melhor, assim aproveitou a farinha. Já não ia servir pra fazer bolo. Venha jantar.
MÃE - Não estou com fome.
DORA` - Não pode estar. Você come o dia inteiro!
MÃE - Só comi uns biscoitos.
DORA - A lata de biscoitos!
MÃE - (TRÁGICA) Você me nega biscoitos? A mim que sacrifiquei a vida por você? Como é triste envelhecer!
EDUARDO - (JÁ MEIO BEBADO) Chantagem emocional! Neurose da família e alimento da tragédia melodramática pequeno burguesa!
DORA - (CONFUSA) Mãe, não se trata disso. Só quero que você se alimente melhor. Eduardo, vem jantar, larga esse jornal.

EDUARDO VAI PRA MESA LEVANDO JORNAL E COPO.

MÃE - Dora, você devia convencer seu marido a deixar a bebida. Seu pai não tinha vícios. Um chefe de família deve ter um comportamento exemplar.
DORA - Não adianta, ele quer beber!
MÃE - Minha filha, com jeito uma mulher consegue tudo de um homem...
DORA - Não me venha com essas suas teorias de mulher aranha. Deixe o meu marido em paz. (VIOLENTA) Pare de beber, Eduardo, e coma. (BOTA COMIDA NO PRATO DELE) E larga esse jornal. Já fica às voltas com jornal o dia inteiro...
MÃE - Bem que eu te disse! Se você tivesse se casado com um médico ou com um engenheiro... Não soube se dar valor...
DORA - Chega, mãe, chega.
MÃE - Estou apenas dizendo que seu marido é um fracasso. É a pura verdade!
DORA - (NÃO MUITO CONVICTA) Não é verdade.
MÃE - É. O homem vale o quanto ganha.
DORA - (CONFUSA) Não é verdade. Ele é um grande jornalista, só que não está sendo valorizado. (COM RAIVA) Eduardo, olha o teu pijama. Já cansei de costurar os rasgões, o tecido tá se desmanchando. Isso é pijama de um jornalista?
MÃE - P'ro salário que ele ganha, tá muito bom!
DORA - Pare de agredir o meu marido. Sou eu que estou sem emprego, não ele.
MÃE - Você não precisaria ter emprego se o chefe da família não fosse um bunda mole.
DORA - (FEROZ) Saia daqui, saia!
MÃE - Ainda não acabei de comer.
DORA - Já comeu o bastante. Saia!
MÃE - (TRÁGICA) Você não tem pena da sua pobre mãe que está morrendo!
DORA - Mentira! Você não morre nunca.

A MÃE SAI.

DORA - (PARA EDUARDO) Saia você também.

ELE SAI DA MESA, DISTRAIDAMENTE, LEVANDO O JORNAL E O COPO. DORA CHORA BAIXINHO, ENQUANTO RETIRA OS PRATOS, LAVA A LOUÇA, ETC. POR ALGUNS SEGUNDOS, SÓ SE OUVE A ÁGUA CAINDO DA BICA.

DORA - Você já pagou a pensão dos teus filhos este mês?
EDUARDO - (VOZ BEBADA) Não.
DORA - Não sei porque você fez esses filhos... nem gosta de criança!... (ESPERA UMA REAÇÃO QUE NÃO VEM) Também não sei como fez esses crianças, trepando uma vez por ano... Só muita coincidência e pontaria... (ESPERA NOVAMENTE) Também não sei pra que se casou de novo... não liga pra mulher... Foi só pra ter uma idiota pra te cuidar, fazer tua comida, passar tua roupa, cuidar dos teus porres... Eduardo, você está me ouvindo?

ELE GRUNHE.

DORA - Quando que você vai crescer e virar homem? Tô de saco cheio da tua inutilidade. É muito fácil sonhar com a alvorada dos povos quando se tem em casa uma imbecil pra segurar as barras do dia a dia. (ESPERA UMA REAÇÃO) Tá cheio de idéias revolucionárias, mas é um machão como outro qualquer, não me ajuda em nada. Porra, eu não aguento falar sozinha o tempo todo! Você é um morto-vivo! Merda, merda, merda!

EDUARDO CONTINUA IMPASSÍVEL.

DORA - (FRAGILIZADA) Eduardo... desculpe. (ESPERA) Diga alguma coisa. Quer um pouco de gelo?

ELE NÃO RESPONDE. ELA VAI ATÉ ELE. VÊ QUE ELE ESTÁ IMÓVEL, O OLHAR PERDIDO NO VAZIO.
DORA - (ANGUSTIADA) Eduardo... você está me vendo? (ESPERA. DESESPERA-SE) Eduardo, onde está você? Diga alguma coisa. Desculpe, eu não quis te ofender... pelo amor de Deus, me olha! (AGARRA-SE A ELE) Duda, meu amor, não fica assim longe de mim, eu não suporto, eu tenho medo, eu morro de medo... Duda, você tem razão, eu sou uma alienada. (SACODE-O) Briga comigo, me xinga...
EDUARDO - Estou bebado.
DORA - Não faz mal. Olha pra mim, me diz alguma coisa, diz que você está comigo... Então faz um discurso político, fala do materialismo dialético... Então, fala: sou um dos maiores jornalistas dessa merda de país! Então, conta o sequestro do embaixador...
EDUARDO - Pára com isso. (EMPURRA-A)
DORA - Você ainda me ama?
EDUARDO - Me larga. (EMPURRA-A BRUTALMENTE. ELA CAI) Vou vomitar. (SAI CAMBALEANDO)

OUVE-SE O BARULHO DO VÔMITO.

CENA 3 - NO PREGO
O FUNCIONÁRIO ESTÁ NO GUICHÊ. TEM OLHEIRAS PROFUNDAS, GESTOS LENTOS, ESTÁ MAIS DÉBIL, A VOZ MAIS FRACA E MONÓTONA. PARECE QUE FOI AFIXADO NAQUELE GUICHÊ. O CALOR É SUFOCANTE. ELE TRABALHA E OUVE VOZES.

FUNCIONÁRIO - (FALA E ESCREVE) Um par de alianças de casamento, com os nomes Pedro e Salete gravados. (PESA AS ALIANÇAS) Tirando juros e comissões...
VOZ 1 - (COM UM GEMIDO UTERINO) Desgraçado! Que a tua mulher te meta um par de chifres! Que o teu filho seja morto pela polícia! Que o teu rabo arda de hemorróidas! Que...

ELE BALANÇA A CABEÇA E ENXUGA O SUOR DO ROSTO.

FUNCIONÁRIO - (FALA E ESCREVE) Relógio de pulso, marca "Seiko", com defeito, dourado, redondo, corrente de plástico imitando couro. Tirando os juros e comissões...
VOZ 2 - Que um câncer te coma os intestinos!

ELE TAMPA OS OUVIDOS E VOLTA A ESCREVER.
FUNCIONÁRIO - Um cordão de ouro, fininho, com uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. A medalha é oca. Tirando...
VOZ 3 - (DESESPERADA) Espera, deixa eu beijar a minha santinha pela última vez...

O FUNCIONÁRIO ENXUGA O SUOR DO ROSTO. PEGA UM PEQUENO EMBRULHO. DEMORA A DECIFRAR O SEU CONTEÚDO. JOGA O OBJETO SOBRE A BALANÇA COM NOJO.

FUNCIONÁRIO - Obturação de ouro de um dente humano, provavelmente um canino. Tirando... (A VOZ FALTA. ELE DESMAIA COM A CARA NO PRATO DA BALANÇA)

CENA 4 - CASA DE DORA


DORA ESTÁ À FRENTE DE UM ESPELHO IMAGINÁRIO, QUE PODE SER O PRÓPRIO PÚBLICO. OLHA-SE DE VÁRIOS ÂNGULOS. APROXIMA-SE.

DORA - Deixa eu te ver mais de perto, Dora. Será que você está mesmo ficando velha e não tinha percebido?!... Você se levantava tão bem dispostas todas as manhãs! ... trabalhava o dia inteiro! ... À noite, a tua pele era quente, tinha brilho... (SORRI, MALICIOSA E COQUETE) ... até ressuscitava um marido inútil para o ofício... Quantas vezes, Eduardo te possuiu sem saber! (RI) A tua febre ressuscitava um pau bebado... (RI MAIS, UM RISO NERVOSO) Um pau bebado, expelindo vodca! Um pau bebado... Tenho o útero cheio de vodca! (PÁRA DE RIR DE REPENTE. OLHA-SE NOVAMENTE DE PERTO NO ESPELHO IMAGINÁRIO) Mas agora, Dora, você está ficando velha... já nem querem te dar emprego! "Desculpe, mas a senhora já ultrapassou o limida da idade..." Aí eu me senti velha, assim, de repente!... Bem, até a Brigitte Bardot ficou velha! Será que ela percebeu isto antes dos patrões?

A MÃE ENTRA. VEM DO INTERIOR DA CASA, NO SEU ANDAR DE MORTA-VIVA.

MÃE - Dora, você está aí?
DORA - Parece que sim, mãe.
MÃE - Tempo maldito! Há três dias que o seu tio não toma sol!
DORA - Deve estar fedendo.
MÃE - Mentira. Ele foi um homem ilustre.
DORA - Os tempos mudaram.
MÃE - Tempos malditos!
DORA - Esquente-o com o meu secador de cabelo.
MÃE - É um desrespeito para com um homem ilustre.
DORA - Pois bote ele ao lado do fogão. (NT) Mãe, eu estou ficando velha?
MÃE - Você é uma mulher de meia idade. (SAI)
DORA - O que vem a ser isso? Mãe, e uma mulher de meia idade não pode trabalhar, ser feliz, viver, como qualquer outra? Me sinto tão bem! (OLHA-SE NOVAMENTE NO ESPELHO IMAGINÁRIO) É, estou muito bem. Dora, você está ótima! Pena que os patrões não pensem o mesmo... (DÁ DE OMBROS)

ENTRA HELENA, A PRIMEIRA MULHER DE EDUARDO.

HELENA - Desculpe, a porta estava aberta...
DORA - No teatro a porta sempre está aberta. É pena que nem sempre as pessoas entrem... Quantos anos você tem?
HELENA - Não vim aqui pra lhe dizer a minha idade.
DORA - Já sei. Eduardo não pagou a pensão dos teus filhos.
HELENA - Dos nossos, meus e dele.
DORA - Meus é que não são.
HELENA - É, ele não quis ter filhos com você. Não sei porque...
DORA - Eu que não quis. Aliás, não quero. Não vou me arriscar a ter filhos aleijados ou dementes. Ou você não sabe que um pai alcoólatra...
HELENA - Os meus filhos são perfeitos!
DORA - A demência muitas vezes só se manifesta na idade adulta. As taras também...
HELENA - Você odeia os meus filhos.
DORA - Impressão sua. Aceita uma bala? Leve essas pras crianças.
HELENA - Obrigada. Não gosto que eles comam balas.

DORA MASTIGA UMA BALA, ACENDE UM CIGARRO.

HELENA` - Tenho telefonado todos os dias pro Eduardo. Ele manda dizer que não está. Nunca aceitei pensão dele. Tenho o meu emprego e não preciso de pensão de ex-marido, mas preciso que ele ajude a criar os filhos dele.
DORA - Tem toda razão.
HELENA - Por isso vim aqui.
DORA - Mas eu não tenho nada com isso. Mês passado, tirei do meu dinheiro pra pagar o colégio dos teus filhos. Este mês não estou a fim. Aliás, nem que estivesse, não poderia, estou desempregada.
HELENA - Problema de vocês.
DORA - Nosso, infelizmente.
HELENA - Não vou abrir mão dessa pensão, nem que tenha que botar o Eduardo em cana.
DORA - Bote. Umas férias na cadeia não fariam mal ao Eduardo. Pelo menos, limparia o corpo da bebida...
HELENA - Que tipo de mulher você é?
DORA - Uma mulher que aguenta um bebado, que você não aguentou.
HELENA - Ele não bebia tanto quando estava comigo.
DORA - Não? Não mesmo? Então por que você o deixou?
HELENA - Não lhe interessa.

APARECE A MÃE.

MÃE - Dora, não se fala mal do marido pra pessoas estranhas.
DORA - É a ex-mulher dele.
MÃE - O marido agora é seu. Eu não queria esse casamento com homem desquitado, mas você quis. Deus te castigou.
DORA - Desquitado não, divorciado.
MÃE - É a mesma porcaria. Cadê o álcool do seu tio?

A MÃE DESAPARECE.

DORA - (CONFUSA, IRRITADA) Pare de me ouvir atrás das portas, velha bisbilhoteira!
MÃE - (DO INTERIOR) Dora, não pague pensão de filhos dos outros.
DORA - Vá à merda. (METE UMA BALA NA BOCA, NERVOSA)
HELENA - (SORRI COMPREENSIVA) Igualzinha à minha mãe. Parecem paridas pela mesma mãe!

AS DUAS RIEM.

HELENA - Você está mesmo desempregada?
DORA - Olha alí o monte de classificados. Todo dia olho e vou à luta...
HELENA - Não conseguiu nada?
DORA - Todos os empregos são pra moças de vinte e poucos anos. Eles não confiam em mulheres com mais de trinta...

RIEM COM DEBOCHE E CUMPLICIDADE.

DORA - Você tem um bom emprego, né? Ministério da Saúde?
HELENA - Há 18 anos. Agora estou lotada no Instituto de Controle da Mortalidade.
DORA - Não conhecia este!
HELENA` - Pertence ao Ministério da Saúde. Foi criado recentemente.
DORA - Ah!... Pra que?
HELENA - Pra controlar a mortalidade, que aumentou muito nos últimos anos. Trabalho no Serviço de Prevenção ao Suicídio. Somos 40 funcionários no SPS. Passamos o dia inteiro tentando convencer às pessoas a não se suicidarem.
DORA - (PERPLEXA) É! Que interessante!
HELENA - Interessante? É um inferno! Temos uma cartilha com 133 argumentos. Nenhum convence. Eles se matam na cara da gente! Estouram os miolos na cara da gente!
DORA - Que horror! E ninguém toma o revólver?
HELENA - Não adianta. Se tomar o revólver, eles se jogam do 15º andar, se fechar a janela, eles bebem soda cáustica, não adianta. E a gente ainda tem que providenciar coroas de flores pra esse bando de irresponsáveis...
DORA - E por que as famílias deles não fazem isso? Por que vocês?
HELENA - Sei lá. Deve ser pra dizer que o Governo tem o maior carinho com os seus defuntos. É uma loucura. Vivo atrás dos fornecedores de coroa de defunto...
DORA - Também uns irresponsáveis, imagino.
HELENA - Não, coitados. É que não dão conta. É serviço demais!...
DORA - Espere. Você disse que os fornecedores não dão conta? Então quer dizer que tá faltando fornecedor?
HELENA - Está.

DORA DÁ UM PULO E ABRAÇA HELENA.

DORA - Você acaba de me arrumar um trabalho! (GRITA) Mãe, arrumei um emprego. Vamos sair da merda. Vamos enriquecer, mãe!
MÃE - (DO INTERIOR) Seu pai sempre teve essa mania, Dora. Morreu pobre.
HELENA - (PERPLEXA) Que que você vai fazer?
DORA - Coroas de defunto. Vou ser sua fornecedora.
HELENA - Não se meta nisso. Você vai enlouquecer. Não é só o Instituto, a freguesia é enorme...
DORA - Tanto melhor. Helena, você me salvou da miséria!
HELENA` - Não se meta nisso. Olha, tô te avisando, escuta, eu não te contei...

MAS DORA JÁ NÃO A OUVE.
DORA - Vou pagar a pensão dos teus filhos com o primeiro dinheiro que receber. Você merece. (DÁ-LHE UM BEIJO ESTALADO)
HELENA - Dora, escuta...
DORA - Vou começar a trabalhar agora. Aprendi a fazer flores de pano quando era mocinha. Ainda sei.

A MÃE REAPARECE.

DORA - Mãe, vou precisar deste seu vestido roxo, agora! (VAI DESABOTOANDO O VESTIDO DA MÃE)
MÃE - Dora, você está louca! Pare com isso. Respeite sua mãe, filha ingrata! Só tenho este ...
DORA - Vista o vestido que você herdou da sua mãe.
MÃE - As traças comeram a metade. Dora, não me dispa na frente de estranhos. Saia, moça, saia.

HELENA, QUE ESTAVA PETRIFICADA, SAI CORRENDO.

MÃE - Dora, você já arrancou as minhas jóias... agora...
DORA - Mãe, vou ganhar muito dinheiro. Vou tirar suas jóias do prego. Vou lhe dar quantos vestidos roxos você quiser. Mas, agora, preciso deste.
ACABA DE ARRANCAR O VESTIDO DA MÃE. A MÃE ESTÁ AGORA DE COMBINAÇÃO DE ALÇAS LARGAS. SAI CORRENDO PROS FUNDOS DA CASA. DORA COMEÇA A TRABALHAR.
EDUARDO ENTRA BEBADO, CANTANDO A INTERNACIONAL COMUNISTA.

CENA 5 - NO PREGO
O FUNCIONÁRIO TEM OLHEIRAS PROFUNDAS, COR ARROXEADA E OS CABELOS EM PÉ. ESTÁ IMOBILIZADO PELO PÂNICO. HÁ APENAS QUATRO CLIENTES EM CENA, MAS O RUÍDO É DE MULTIDÃO DEVORADORA. CADA UM DOS CLIENTES CARREGA UM OBJETO, QUE VAI DO SIMPLES LIQUIDIFICADOR À PEÇA MAIS ESTRANHA. OS CLIENTES NÃO TÊM IDENTIDADE COMO NA CENA 1. ELES FAZEM PARTE DE UMA MASSA CARENTE, PERDIDA, DESESPERADA.

CLIENTE 1 - Abre logo essa merda! (DÁ UM SAFANÃO PARA UM LADO) Se me empurrar de novo, meto-lhe um tiro na cara.
CLIENTE 2 - Moço, deixei o meu filho de dois anos trancado no apartamento. Não posso esperar mais.
CLIENTE 3 - Isso é uma falta de respeito. Vou esperar mais cinco minutos, se não abir essa joça, vou meter o pé...
CLIENTE 2 - Ai, meu pé!
FUNCIONÁRIO - Por favor, não empurrem. Façam fila, por favor. Ordem é progresso. Sem ordem não pode haver progresso. Por favor...
CLIENTE 1 - Ordem coisa nenhuma, seu rato de gaveta.
CLIENTE 4 - Fica aí bem sentado e a gente aqui mofando...
CLIENTE 2 - Estamos aqui há três horas...
FUNCIONÁRIO - Não tenho culpa. Sou apenas um funcionário da casa. Estou esperando ordem superior.
CLIENTE 3 - Ordem superior, o cacete! Abre essa porra que eu quero entrar. Vou falar com o chefe. Quero falar com o dono dos porcos.
FUNCIONÁRIO - Impossível. É proibida a entrada de pessoas estranhas.
CLIENTE 1 - E há tipo mais estranho do que tu com essa cara de fuinha?
CLIENTE 3 - Com quem tu pensa que tá falando, hein, ô meu?
CLIENTE 1 - Isso mesmo. Vou entrar e tu vai se arrepender se me impedir...
FUNCIONÁRIO - Por favor. Cumpro ordens...
CLIENTE 4 - O senhor vai se dar mal, vou ligar pro meu tio general.
CLIENTE 3 - Vamos derrubar essa merda, agora!

EMPURRAM O GUICHÊ.

VOZES - Derruba! Derruba! Derruba!
TELEFONISTA - (OFF) Chamada urgente. É da Casa de Penhores. Urgente. Urgentíssimo. Há ameaça de saque e linchamento.
VOZES - Lincha, lincha, lincha!

LUZ SÓ SOBRE OS DOIS HOMENS EM CENA, QUE, DE COSTAS, FALAM AO TELEFONE.

GERENTE - Excelência, desculpe interromper o seu sono...
EXCELÊNCIA - Não desculpo. Vou demití-lo, seu incompetente.
GERENTE - Pelo amor de sua veneranda mãe, Excelência, deixe-me explicar. A situação é calamitosa. A malta ameaça derrubar a Casa de Penhores e nos linchar.
VOZES - Filho da puta, filho da puta, filho da puta!
GERENTE - E xingam a sua veneranda mãe!
EXCELÊNCIA - Bando de baderneiros, escroques, espúrios. Chame a Polícia.
GERENTE - Já chamei. Não há um policial disponível. A polícia está atrás dos assaltantes.
EXCELÊNCIA - Pois chame o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, imbecil.
GERENTE - Estão nos morros! Excelência, se me permite, acho que poderemos resolver a situação democraticamente...
EXCELÊNCIA - Se disser uma asneira...
GERENTE - Talvez, se S.Excia. permitir, se aceitássemos os objetos que eles querem empenhar...
EXCELÊNCIA - São de ouro?
GERENTE - Não, quem ainda tem jóia é porque não precisa empenhar nada...
EXCELÊNCIA - São valiosos, pelo menos?
GERENTE - Alguns poucos. A maioria é utensílio doméstico, buginganga...
EXCELÊNCIA - Buginganga? E o senhor está me propondo encher a Casa de Penhores com bugingangas?
GERENTE - É o que eles têm, Excelência. E, se não aceitarmos, vamos ter que fechar a casa...
EXCELÊNCIA - Miseráveis! Povinho preguiçoso!
VOZES - Derruba, lincha! Filho da puta!
EXCELÊNCIA - Mas como calcular o valor dessas porcarias?
GERENTE - Não há como calcular, são muito diversificados. Daremos alguns trocados e eles ficarão satisfeitos. Depois, revenderemos tudo para as fábricas. Não será um mau negócio...
EXCELÊNCIA - Bem pensado, bem pensado...

FAZ-SE SILÊNCIO DO OUTRO LADO DA LINHA.

VOZES - Lincha!
GERENTE - Excelência, responda, nossas vidas estão em perigo...
EXCELÊNCIA - Se o estupro é inevitável, relaxe...
GERENTE - Perfeitamente, Excelência.

VOLTA A LUZ GERAL. OS CLIENTES ESTÃO SUBINDO PELO GUICHÊ E O FUNCIONÁRIO AGACHOU-SE DO OUTRO LADO.
FUNCIONÁRIO - Vou abrir o guichê agora... por favor, afastem-se... ordem, sem ordem não há progresso...

ELES DESCEM DO GUICHÊ, MAS CONTINUAM AMEAÇADORAMENTE AMONTOADOS.

FUNCIONÁRIO - (A VOZ VAI-SE APAGANDO E A LUZ MORRENDO) Por favor, façam fila... colaborem... pelo amor de Deus, da pátria, da família, da democracia, da cidadania...(FOCO SÓ SOBRE O FUNCIONÁRIO, AGORA FALANDO E ESCREVENDO) Batedeira elétrica, marca apagada, modelo 1964, cor azul...

O FUNCIONÁRIO CONTINUA TRABALHANDO MAS JÁ NÃO SE OUVE SUA VOZ.

CENA 6 - CASA DE DORA

DORA TRABALHA AVIDAMENTE, CONSUMINDO BALAS E CIGARROS. A MÃE ESTÁ DEITADA NO SOFÁ E TEM METADE DO VESTIDO COMIDO PELAS TRAÇAS. GEME. POR CIMA DELA E EM OUTROS CANTOS DA CASA, HÁ COROAS DE DEFUNTO.

MÃE - (TRÁGICA) O que será do seu tio sem mim!? O que será de você sem a sua mãe!!!???
DORA - Eu me viro, não se preocupe.
MÃE - Filha ingrata! Quer-se ver livre da pobre mãe doente!
DORA - Não enche o saco, mãe. Tenho muito o que fazer. Que que você acha d'eu botar esta flor vermelha aqui no meio?
MÃE - É falta de respeito para com os mortos. Vermelho é cor de prostíbulo e de comunista.
DORA - (RI) Besteira. Lembra quando a Carmem Miranda morreu? Veio lá dos States com a cara toda maquilada, a boca vermelho-sangue, nem parecia defunda...
MÃE - Coisa de protestante, coisa do diabo.
DORA - Ora, mãe, protestante também é cristão.
MÃE - (ENÉRGICA) Quem te ensinou isso, menina?
DORA - O Papa!
MÃE - Já não se fazem papas como antigamente!
DORA - (DÁ UMA RISADA) Você quer ser mais realista que o rei. Cristo tinha um manto vermelho.
MÃE - E sofreu muito.
DORA - Tudo bem, mas vou ter que botar esta flor vermelha aqui. As roxas acabaram.
MÃE - Dora, estou ficando dura!
DORA - É nervoso, mãe, relaxe. (DISTRAIDAMENTE, JOGA SOBRE A MÃE A COROA QUE ACABOU DE FAZER)
MÃE - O meu joelho direito já não se mexe.
DORA - Falta de ginástica. Você nunca fez ginástica! Vou tirar um pedacinho do seu vestido pra adiantar o serviço...
MÃE - Não, eu te suplico, filha! Sua mãe está moribunda, sua mãe está morrendo...
DORA - (CORTA UM PEDAÇO DO VESTIDO) Se está morrendo, não vai precisar mais do vestido. Pare com esta encenação, mãe.
MÃE - (TRÁGICA) Filha desnaturada! Desgraçado do meu útero que gerou tamanho monstro! Que o braço de Deus se encarregue da minha vingança, amaldiçoando toda a tua descendência!
DORA - Não tenho descendentes, mas isola! (BATE TRÊS VESES NA MESA), que praga de mãe é pior que bula de excomunhão papal!
MÃE - Dora, o outro joelho endureceu!
DORA - Tomara que endureça logo a língua. Só assim você pára de falar. Devia era estar aqui me ajudando. Você não pode ver trabalho que quer logo morrer.
MÃE - (GEME) Agora foram os intestinos que pararam. A morte está vindo de baixo para cima. (TRÁGICA) Ai de mim!

A CAMPAINHA TOCA.
DORA - (GRITA) A porta está aberta!

ENTRA UM MENSAGEIRO.

MENSAGEIRO - Sou do Serviço de Proteção às Vítimas das Enchentes.
DORA - Pois não.
MENSAGEIRO - Quero encomendar cinco coroas.
DORA - Só? Só morreram cinco pessoas na última enchente? Não acredito!
MENSAGEIRO - (PROFISSIONAL) Calculamos em cinco mil o número de mortos!
DORA - Uma coroa pra cada mil defuntos? Que miséria!
MENSAGEIRO - (PROFISSIONAL) Como não foi possível identificar os mortos, nosso Chefe determinou que fosse erguido um monumento ao Afogado Desconhecido. As coroas destinam-se à inauguração desse monumento. Aqui está o pedido oficial. Quando poderei vir buscar as coroas?
DORA - Tem urgência?
MENSAGEIRO - Muita urgência.
DORA - Dentro de 48 horas.
MÃE - Dora, não assuma comprimisso que você não possa cumprir.
DORA - Não se meta, mãe.(AO MENSAGEIRO) Em 72 horas, é mais certo.
MENSAGEIRO - Por favor, assine a segunda via do pedido. Aqui, no "ciente".

DORA ASSINA E O MENSAGEIRO VAI SAINDO.
DORA - O senhor não vai deixar um sinal?
MENSAGEIRO - Que que a senhora disse?
DORA - Um sinal em dinheiro. Preciso comprar material.
MENSAGEIRO - (SUPERIOR) No Serviço Público, não pagamos nada a dinheiro. Pagamos com ordem de pagamento. A senhora receberá uma ordem de pagamento por ocasião da entrega da mercadoria.(SAI)
DORA - Hum, ainda não é chefete e já tem pose de diretor! Ordem de pagamento! Não estou gostando dessa história! O Instituto de Controle da Mortalidade também vai pagar com ordem de pagamento. Encomendou vinte coroas para os suicidas de amanhã.
MÃE - De ontem.
DORA - De amanhã. Fui eu que recebí a encomenda!
MÃE - De ontem. Como que eles vão adivinhar os suicidas de amanhã?
DORA - Ah, eles fazem estatística! Cada dia da semana ou do mês, não sei muito bem, tem um determinado número de suicidas. A Helena me disse que eles, quando erram, erram por pouco. Diz-que fim de mês nunca tem menos de cem suicídios, declarados!
MÃE - Os homens estão esquecidos de Deus, minha filha! Até os padres - que Deus me perdoe! Ai, Dora, a morte chegou no fígado! Ai, ai, ai de mim!
DORA - (RINDO) Você é uma personagem de tragédia grega!
MÃE - A minha vida sempre foi uma tragédia, uma luta! (SUSPIRA)
DORA - Ora, mãe, você nunca fez porra nenhuma nessa vida!
MÃE - E criar você? Você pensa que não deu trabalho? Eu queria que você tivesse um filho pra ver como sofre uma pobre mãe! Dora, minha filhinha, o que será de você sem a sua mãe?!!!
DORA - Tenho mais de quarenta aninhos, mãe!

O TELEFONE TOCA.

DORA - (AO TELEFONE) Alô... é sim, pode falar... Fábrica de que?... Sim, sei, sei... 34 coroas para amanhã? Impossível, meu senhor, encomenda assim grande tem que ser feita com antecedência... Não, não estou brincando. Hoje em dia se pode prever essas coisas, é a tecnologia. O senhor sabe que de vez em quando há escapamentos de gases na sua fábrica. Então verifique a constância desses escapamentos, faça uma estatística do número de mortos e poderá ter uma previsão. Se no mês que vem, por exemplo, deverão morrer mais uns trinta e poucos, faça a encomenda agora. Se faltar uma ou duas coroas... O que? Vá você, seu... (BATE O TELEFONE) Covarde, xinga e desliga. (RI) Me mandou à puta que pariu, mãe.

A MÃE NÃO REAJE. DORA ESTRANHA AQUELE SILÊNCIO.

DORA - O cara lhe xingou, mãe.(A MÃE NOVAMENTE NÃO RESPONDE) Mãe?... (CORRE ATÉ ELA) Mãe!... (GRITA) Mãe... (SACODE-A) Mãe, não faça isso, não brinque com isso... Mãããeeee, não faça isso comigo, não morra, eu não posso viver sem você... Minha mãezinha...
MÃE - (ABRE OS OLHOS) Estou morrendo, filha...
DORA - (BERRANDO) Não, mãe, reaja, reaja, minha mãezinha...
MÃE - Traga o seu tio...
DORA - Não, você não vai morrer, você não pode morrer...
MÃE - Traga, quero me despedir dele...
DORA - (SE DESCABELANDO) Não, não, nãããooo, isso não pode estar acontecendo comigo... minha mãezinha, minha santa mãezinha...
MÃE - Dora, acalme-se. Morrer não é ruim... mas não esqueça a sua mãe...
DORA - Eu nunca te esquecerei, nunca. Juro.
MÃE - Agora traga o seu tio. Você promete que cuidará dele como eu cuidei?
DORA - Prometo.
MÃE - Jure.
DORA - Juro.
MÃE - Vá buscar o seu tio. Depressa!
DORA - Vou, mas não morra agora, espere eu voltar...
MÃE - Eu espero, vá...

EM PRANTOS, DORA SAI CORRENDO E VOLTA ABRAÇADA AO TIO, QUE É UM ESQUELETO. A MÃE BEIJA A CAVEIRA DO TIO, ENQUANTO DORA A PRANTEIA DESESPERADAMENTE. A CENA DEVERÁ TERMINAR COM UM FOCO DE LUZ BRANCA SOBRE AS PERSONAGENS ESTÁTICAS.

FIM DO 1º ATO



Fonte: http://www.theatro.ocrocodilo.com.br/


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